Goiânia – Era uma sala de aula de universidade como outra qualquer. O professor Pedro Caldeira dirige-se à turma e conta a história de Kitty Genovese, uma mulher assassinada em março de 1964 perante uma multidão de 38 testemunhas. Segundo os registros conhecidos até a época, ninguém se moveu para ajudar a vítima.
Kitty tinha 28 anos e 4 irmãos mais novos. Era conhecida pelos colegas como sendo mais madura do que a idade e com uma boa disposição “ensolarada”. Estava namorando há um ano, trabalhando dois turnos num bar que ela começou a gerir e seu sonho era abrir um restaurante italiano, fazendo jus à sua herança europeia.
Mas na madrugada de 13 de março seu sonho deixaria de ser possível. Ao sair do trabalho, entrou no seu fiat vermelho e foi em direção à sua casa. Parou no sinais vermelhos que deveria parar e avançou nos verdes até que estacionou ao lado do prédio onde morava. Foi num daqueles semáforos que seu assassino a viu e começou a segui-la. Agora andando em direção à sua casa, viu-se perseguida. Correu, e correu-se atrás dela e, finalmente, levou duas facadas nas costas. Por causa da gritaria, que a maioria dos vizinhos ouviu mas não reagiu, apenas uma pessoa gritou pela janela e o cara saiu correndo com sua faca. Kitty tentou entrar no prédio mas, ferida e com dor, conseguiu apenas deitar-se no chão. O cara volta, encontra-a deitada, e por trinta minutos fere-a mais vezes com sua faca, violenta-a sexualmente e rouba os 49 dólares que estava na carteira, apenas para sair correndo. Algumas testemunhas chamaram a polícia, mas a polícia ignorou. Outras sequer reagiram. Quando finalmente uma ambulância chegou, Kitty foi levada para o hospital em cujo caminho veio a morrer.
O Professor Caldeira para, olha para os alunos e pergunta “por quê ninguém ajudou?”.
Eu arrisquei uma das primeiras respostas, ao que ele diz “não”. Alguns dos meus colegas tentam uma, duas, três, dez opções cada um e o professor continua dizendo que nenhuma estava certa. A turma culpou a insensibilidade, a normalidade do crime, o perigo dos sinais vermelhos, o governo e a polícia. Cada um foi buscando aquele culpado de sempre.
O que ele não nos contou é que Kitty era lésbica e que a primeira e principal suspeita da polícia era… a coitada da namorada-viúva.
Anos se passaram. Não estamos mais na história de Manhattan contada pelo professor aos alunos. Estamos no Brasil, noutra sala de aula, desta vez escola de ensino, mais especificamente na cidade de Suzano (SP). Um jovem de 17 anos entra e mata, com um companheiro de 25 anos, 9 pessoas, ferindo outras 11. A notícia circulou o Brasil. Comoveu e ainda comove a muitos. E o debate se inicia. De quem é a culpa? Das armas que foram feitas para matar? Convenhamos a arma de fogo mata mais que um machado! Do governo que faz apologia ao uso de armas? Como pode o governo monitorar a todos? Sistema de segurança e vigilância falhou?
Havia câmeras e as forças de segurança chegaram bem rápido! Bullying? Mas será que todas as vítimas de violência se tornam agressoras? Ah, então a cultura imediatista e competitiva? Isso quer dizer que somos todos assassinos em potencial?! Sobrou a família: mas… por que as famílias que estão em luto têm que ser as responsáveis, não são elas vítimas também?
O Vice-Presidente encontrou a solução: os video games! Os mesmos que a revista Science prova melhorarem o funcionamento de áreas cerebrais associadas a funções específicas como atenção e desenvolvimento sensório-motor. Os mesmos que exato um mês antes do massacre são abordados pela Real Sociedade Britânica como não tendo qualquer associação com comportamento agressivo de adolescentes.
Mas então, de quem é a culpa? Precisamos de culpados!
Talvez a resposta esteja no atentado na Nova Zelândia, onde duas mesquitas foram atacadas e 49 pessoas morreram e cerca de 50 ficaram feridas, na cidade de Christchurch. Ao que tudo indica, o perpetrador do crime queria filmar e fazer lives em redes digitais! A culpa é da Internet então? O absurdo é que os apologistas de que a as armas são tão culpadas como as mãos de quem dispara, correm para este argumento esquecendo que ele se aplica a qualquer outra coisa: no caso, a Internet só tão é perigosa as mãos de quem a usa, e não é ela que precisa ser fiscalizada!
Então quem?
O Senador australiano Fraser Anning corre em trazer mais uma explicação: as vítimas são as culpadas! (preciso realmente contra-argumentar isso?).
Sou fã de Viktor Frankl, um sobrevivente de depressão, do Holocausto e dos ódios e das mortes e das chacinas. Certa vez li a sua teoria explicando a diferença entre culpa e responsabilidade. E acho que o verdadeiro debate é esse! Culpa é se mortificar olhando para trás. Responsabilidade é tomar as rédeas da situação e descobrir uma forma de dar sentido a essa sensação profunda que nos causa sofrimento. Então, talvez não se trate de culpa, mas de responsabilidade!
A Nova Zelândia olhou para a situação e ao invés de tentar culpar a direita ou a esquerda, ou encontrar uma explicação para os ódios, resolveu que iria apertar sua legislação para armas (uma das mais leves do mundo “ocidental”), tornar a licença obrigatória, e diminuir o número de armas (a cada três neozelandeses, estima-se que um tenha arma).
A responsabilidade é olhar para frente e nunca mais deixar que a história se repita. Entretanto, aqui, no nosso continente, podemos discutir eternamente quem tem a culpa — já que como as crianças de Suzano, as vítimas inocentes de Christchurch e Kitty — a culpa acaba morrendo eventualmente.
E talvez esse seja o meu maior aprendizado com aquele que foi meu Professor. Ao ver que todas as respostas estavam erradas, deixei de arriscar para ver como ele concluía a sua história. Na verdade, não se tratava de descobrir as culpas, tratava-se de aprendermos com o passado e nunca mais repeti-lo.
Somos capazes disso?
Sam Cyrous é psicólogo (09/8178), psicoterapeuta de casais e família, storyteller e curador do TEDxGoiânia