Logo

Reforma Agrária paralisada é sinal de prejuízos para o Brasil

25.03.2019 - 10:44:19
WhatsAppFacebookLinkedInX

Goiânia – A reforma agrária não pode ser compreendida somente a partir do conceito tradicional, pois tem como objetivo principal a distribuição de terras com qualidade, a reordenação da estrutura fundiária e territorial do Brasil, evitando, com isto, a concentração de terras nas mãos de poucos e a formação de latifúndios.

 
Desta forma, a reforma agrária é uma importante política pública de Estado que tem o fito de promover o progresso econômico e social de famílias (agricultores) que formalmente a integra, cooperando para diminuir a pobreza, para a produção de alimentos e a geração de empregos, para atenuar as desigualdades regionais e para controlar o êxodo rural, o que reflete diretamente na qualidade dos centros urbanos, na perspectiva de fixação do homem no campo, reduzindo ou até mesmo impedindo os inchaços das cidades, a favelização, o aumento da marginalidade, da criminalidade, da prostituição infantil e outras consequências danosas.
 
O que se pretende com a reforma agrária são as garantias das condições de sustentação de quem é pequeno ou médio produtor rural. O que se deseja efetivamente é que o Brasil deixe de ser uma nação meramente latifundiária, acumuladora de riquezas, tendo em vista que a concentração de terras não ajuda em nada para o desenvolvimento de um País e de seu povo.
 
Há pesquisas que apontam para nada menos que 2% das propriedades rurais do Brasil estarem mapeadas com mais de 1.000 hectares. Tais propriedades chegam a ocupar quase 45% do território nacional. De outro lado, propriedades com menos de 100 hectares vão representar quase 80% de tudo o que temos de quantidade de imóveis rurais no Brasil. Quando juntas, passam a ocupar uma área de apenas 20% do território. Esses dados nos dizem que há muita terra nas mãos de pouca gente e pouquíssima terra nos braços de muitos brasileiros.
 
Com isso, perde-se tempo em relação à redução da miséria, ao desemprego crescente, especialmente nas zonas rurais, e tantas outras mazelas sociais que acometem a nossa sociedade.
 
Portanto, é de extrema importância a realização da reforma agrária no País, proporcionando terra para a população trabalhar, aumentando a produção agrícola, gerando empregos baratos, movimentando o comércio naqueles municípios onde nascem assentamentos, reduzindo as desigualdades sociais, democratizando a estrutura fundiária, etc. 
 
Feitos estes esclarecimentos, percebe-se que o atual governo, que se instalou no dia 1º de janeiro do corrente ano, já demonstrou que não irá fortalecer esta política pública tão importante, como outrora afirmado. 
 
Por razões simples. Em primeiro lugar, porque no período de campanha eleitoral em nenhum momento manifestou apreço pela reforma agrária. Em segundo, todos os atos emanados pela Ministra Estado da Agricultura e pelo presidente do Incra demonstram claramente uma nova etapa que viverá o Instituto Nacional de Reforma Agrária, criado para executar aquilo que foi estabelecido pela Lei 4.504/67 (Estatuto da Terra), que é realizar a reforma agrária e a promoção da política agrícola.
 
Desta feita, os prejuízos com a paralisação da reforma agrária serão vistos a curto e médio prazos nas cidades e no campo, com o agravamento dos conflitos de sem terras e polícia, ou pistoleiros de fazendeiros. Com esta paralisia na obtenção de terras para atender uma população esquecida pelo Estado Brasileiro, aumentando significativamente as invasões lideradas pelos diversos movimentos sociais esparramados pelo País.
 
A concentração de terras nas mãos de poucos favorece aos grandes grupos econômicos, aumenta a pobreza e a desigualdade social, com reflexo na diminuição da oferta de alimentos (a agricultura familiar corresponde a 70% da alimentação brasileira), dentre outros infortúnios.
 
O maior prejuízo de todos: continuaremos no atraso em relação a diversos países que realizaram a reforma agrária e com isto contribuíram para o desenvolvimento econômico e social, transformando-se em potências mundiais. Tempos ruins a caminho.
 
Ailtamar Carlos da Silva é advogado especialista em Direito Agrário; Pós-graduado em Direito Ambiental, Direito Administrativo, Direito Civil e Processo Civil.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Ailtamar Carlos Da Silva
Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]