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Vingadores: Ultimato é uma porcaria

11.05.2019 - 08:00:00
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Detesto filas e cinemas lotados. Nunca neguei que hypes também me incomodam. Então, passado o alvoroço inicial, finalmente assisti Vingadores: Ultimato. Posso garantir: o filme é uma porcaria.
 
Numa analogia simples – mas precisa –, a nova aventura da Marvel é uma porcaria equivalente ao combo nº 1 do McDonald’s: Coca-Cola, Big Mac e batata frita. Tudo boiando em ketchup. Comida industrializada, que agride a saúde. Em troca de uma vida mais curta, prazeres efêmeros.
 
Vale também comparar com uma cerveja ambeviana estupidamente gelada. Ou ainda com açúcar refinado, bacon e quetais. Sabores e efeitos tão intensos que reduzem a sensibilidade a paladares mais apurados. Surge aí o primeiro problema.
 
Quando moleque, fui um leitor contumaz de super-heróis – principalmente os da Marvel. Acho importante assinalar que tais quadrinhos nunca aspiraram ser “grande arte”. O próprio Stan Lee havia guardado seu nome de batismo, Stanley Martin Lieber, para futuras empreitadas literárias. Não queria se queimar com gibizinhos descartáveis. Não sei se por sorte ou azar, isso nunca aconteceu.
 
Os heróis da Marvel não eram como os da DC. Havia uma tentativa de profundidade neles. Drama – ou melhor, melodrama – humano. Eles se feriam, física e emocionalmente. Sofriam. Tinham dúvidas e dívidas. Mas não nos enganemos: eram escritos para um público infanto-juvenil.
 
O fato é que os super-heróis foram, para mim – e tantos outros da minha geração – uma porta de entrada para o que de melhor as HQs podiam oferecer. À medida em que amadurecia, foram eles que me levaram ao quadrinho europeu, ao mangá, aos underground comix, à HQ brasileira. Foram eles que me apresentaram a potência dos quadrinhos enquanto linguagem. Algo impossível, por exemplo, na Turma da Mônica. (A propósito, sempre fico com receio de adultos que continuam lendo os gibis do Mauricio de Sousa.)
 
Thanos é uma cria da segunda geração da Marvel. Se nos anos 1960 Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko plantaram as sementes, foi na década seguinte que vieram à luz seus frutos mais vistosos. Àquela altura, Lee estava na costa oeste americana, tentando vender os super-heróis para o cinema e televisão. Demorou, mas deu certo.
 
Enquanto isso, uma nova geração de autores dava um passo adiante na complexidade das histórias e personagens do universo Marvel. Há relatos que, durante o período, os corredores da editora rescendiam maconha. Não duvido. Basta dar uma olhadinha no trabalho do ex-combatente do Vietnã, Jim Starlin.
 
A primeira saga de Thanos nos gibis foi emblemática. LSD e psicanálise se embrenhavam nas HQs do Capitão Marvel, sob a batuta de Starlin. Havia poesia nas motivações do vilão niilista– que, a bem da verdade, não era exatamente um vilão. Apaixonado pela Morte, Thanos queria lhe oferecer o fim do universo como prova de amor. Foi barrado pelos Vingadores, com a ajuda do Homem-Aranha. Desde então, o personagem ressurge, numa verdadeira presepada infinita. Gibi de super-herói é assim mesmo: caldo requentado.
 
A matéria-prima usada em Guerra Infinita e concluída em Ultimato é outra. Thanos quer destruir metade do universo para restabelecer a ordem das coisas. O sujeito é neomalthusiano.
 
Para quem não se lembra das aulas de geografia, a teoria neomalthusiana afirmava que os problemas do mundo derivavam de sua superpopulação. Ou seja, temos fome e miséria porque o mundo está lotado. Sei. Distribuir riquezas, que é bom, ninguém quer. Parece a reforma da previdência do Bolsonaro…
 
Mesmo com esta premissa um tanto mais frágil que a HQ original, os filmes honram o legado de Starlin. O quadrinista, inclusive, faz uma ponta na película. E deve ter levado uma boa grana na jogada. Nada mais justo.
 
Falando em dinheiro, tudo indica que Vingadores: Ultimato, logo logo se tornará a maior bilheteria da história do cinema. Bom pra eles. Duro é ver nerd comemorando recorde de bilheteria como se fosse acionista do filme.
 
Aliás, o nerdismo foi elevado à enésima potência em Ultimato. A paranoia anti-spoilers estabeleceu novos parâmetros com a película. Debates acalorados nas redes sociais. Pancadaria em algumas sessões. O mais engraçado é que qualquer informação passou a ser considerada spoiler.
 
Como faço com praticamente tudo, evitei resenhas e críticas antes de ver o filme. Gosto de chegar ao cinema sem nada direcionando meu olhar. Neste Vingadores, foi assim que aconteceu. Não tive acesso a nenhum spoiler – o que não me impediu de saber tudo que aconteceria na trama. Uns heróis morrem, outros ressuscitam. Eles vencem no final. É super-herói, caceta! E o sucesso da Marvel Studios é justamente esse: fidelidade ao espírito dos seus velhos quadrinhos.
 
A questão é que os velhos quadrinhos Marvel eram dirigidos a um público adolescente. Vingadores: Ultimato também. O que causa apreensão é justamente ver tanto “adulto” capturado nesse gigantesco estratagema. Se nos gibis os super-heróis eram capazes de nos conduzir a quadrinhos mais maduros, isso também deveria acontecer no cinema. Mas não. É deprimente ver uma geração de quarentões cuja experiência cinematográfica máxima se restringe a um blockbuster super-heroístico.
 
Isso se reflete, inclusive, numa certa visão de mundo. Confesso ter ficado pasmo ao ver marmanjos defendendo que a ocupação de mais de 80% das salas de cinema brasileiras por Vingadores: Ultimato se tratava de simples demanda. Quem acredita nisso não deve ter problemas em acreditar que a reforma da previdência será boa para os trabalhadores. Assisti o filme em um shopping popular. Menos de 20 pessoas na sala. Faça as contas.
 
Concordo com o quadrinista britânico Alan Moore: essa hegemonia dos super-heróis no cinema só pode ser nociva – ao próprio cinema e à cultura como um todo. Como lidar com as complexas questões da sociedade se não formos adultos o suficiente para isso?
 
Entender esse movimento como nocivo não me impede de me divertir com Vingadores: Ultimato. É entretenimento feito para levar nossa grana. Mas é bem feito pacas. E gosto de acreditar que, com algum esforço, as pessoas podem exercer certa autonomia crítica – não só diante do filme, mas também da gigantesca máquina de marketing nele enredada.
 
É o velho papo de se apropriar daquilo que está colocado diante de nós. Há um bocado de coisas para se apropriar neste filme dos Vingadores. As representações de mulheres e negros, por exemplo, são positivas. Quem tem chamado isso de lacração certamente lê super-heróis na mesma perspectiva do Moro. Ou é desses cristãos neo-pentecostais que defendem que “bandido bom é bandido morto”. Ainda bem que o Justiceiro não está no filme.
 
Não tenha dúvidas: Vingadores: Ultimato é uma porcaria tão grande quanto Star Wars, Senhor dos Anéis e o filme do Queen. Ou as séries da Netflix.
 
A questão é: quem não gosta de uma bela porcaria?
 

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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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