Hoje não é segunda-feira mas, excepcionalmente, você está lendo um novo texto meu nessa coluna. E por quê? Porque se eu não colocasse para fora tudo isso, iria sufocar. Desde ontem (8/5) à noite, quando soube do acidente de helicóptero que matou cinco delegados e dois peritos policiais, não consigo parar de me entristecer.
A princípio, pensei que fosse pela tragédia em si. Afinal, o fato de sete pessoas morrerem numa explosão de aeronave, deixando para trás mulheres, filhos, amigos e colegas de trabalho é desolador, para dizer o mínimo. Entretanto, com o passar do tempo, percebi que havia mais uma outra razão para tanta tristeza.
Todos aqueles que morreram eram conhecidos por sua competência e, principalmente, por sua honestidade. Procure na internet alguma denúncia de recebimento de propina, tortura de presos, tráfico, participação em esquemas ilícitos ou qualquer coisa do gênero envolvendo esses homens e você não encontrará.
Converse com qualquer repórter da área de polícia que já tenha entrevistado um desses profissionais e certamente você ouvirá a mesma coisa: eram fontes acessíveis, respeitosas, que não tratavam a imprensa como um bando de urubus em busca de carniça ou débeis mentais, mas como pessoas cumpriam seu dever.
Profissionais sérios, compromissados com seu trabalho e que tinham a exata noção do tamanho de suas responsabilidades. Parece óbvio que fosse assim, que não houvesse mérito algum nisso, pois não faziam mais que a obrigação em agir dessa forma. Só que no Brasil de hoje ter uma postura decente e íntegra virou mérito, sim.
São tantos escândalos de corrupção, de gente querendo levar vantagem sobre tudo e todos, é tanta falta de pudor na hora de tratar como coisa privada a coisa pública, que quando alguém não adere a esse sistema triste e deprimente acaba se tornando exceção. Uma honrosa e boa exceção.
Os benefícios que gente assim traz a quem convive com eles são incontáveis. Que o diga Maria Auxiliadora Braule Pinto, mãe do garoto Pedrinho, que foi sequestrado por Vilma Martins numa maternidade em Goiânia. Graças ao empenho do delegado Antônio Gonçalves (um dos mortos no acidente de ontem), conseguiu ter o filho de volta, 16 anos depois do sequestro.
Eram homens que faziam o que era certo pelo simples fato de que deveria ser assim. Agiam corretamente não porque buscavam notoriedade, dinheiro, posição social ou cargos públicos elevados, mas porque suas funções pediam isso. Porque trabalhavam para o povo e sabiam que ele merece respeito.
Eram gente como eu e você. Que trabalha muito, precisa contar os cobres no final do mês para quitar as contas, paga incontáveis impostos, mas nem por isso desiste de ser honesta. Gente que sabe que é com esforço, suor e integridade que se consegue as coisas mais valiosas para si e para o nosso País.
Agora são menos sete. Menos sete pessoas como eu e você. Parece pouco, mas não é. O país é a nossa casa, a nossa família. E cada homem público, seja ele responsável pela nossa segurança, saúde, transporte, moradia ou o que mais for, acaba sendo também o chefe dessa família em determinado instante. Quando um chefe honesto se vai, deixa órfãos todos aqueles que precisam da sua coragem e integridade.
Eu fiquei órfã. Órfã de decência. Em seu Poeminha do Contra, Mario Quintana dizia: “Todos estes que aí estão/Atravancando o meu caminho,/Eles passarão./Eu passarinho!”. Antônio Gonçalves, Osvalmir Carrasco, Bruno Rosa, Jorge Moreira da Silva, Vinícius Batista da Silva, Marcel de Paula e Fabiano Silva viraram pássaros. Vão fazer muita falta.