Por conta do jogo decisivo entre Goiás e Atlético-GO na final do Campeonato Goiano, a TV Anhanguera mostrou nessa semana imagens das quatro finais protagonizadas pelas duas equipes nos últimos cinco anos. Bateu um saudosismo danado. Nem foi pelos gols, pelos jogadores que deixaram o futebol goiano para equipes maiores ou se aposentaram, nem mesmo pelas camisas que já ganham um certo aspecto retrô. A saudade de verdade foi por conta da presença do público na geral. O estádio ficava infinitamente mais bonito com aquela parcela preenchida pelo torcedor mais apaixonado de todos.
É um absurdo a proibição da torcida nessa parte mais folclórica dos estádios brasileiros. Os chamados geraldinos perderam seu espaço por conta de uma “higienização” de fundo fascista que estamos promovendo nas arenas que antes eram a casa do povo. Não é por menos que estamos observando uma “playboyzação” das torcidas brasileiras.
Quando passamos o olho, seja in loco, seja pela televisão, nas feições do público dos jogos percebemos que ele está cada vez mais classe média. Não vemos mais aquele sorriso desdentado feliz, com uma camisa velha do seu clube de coração comprada no camelô. Agora temos o senhor com respeitáveis cabelos grisalhos e ar de autoridade. Não vemos mais aquele tiozinho careca pulando de alegria com o radinho de pilha na orelha. Agora temos o adolescente com camisa oficial e filmando tudo com o seu celular de última geração para compartilhar com os amigos de rede social. Não vemos mais a molecada jogando bola ou soltando pipa no vão da geral. Agora temos óculos escuros de grife e sorrisos com dentes alvíssimos corrigidos por caríssimos aparelhos ortodônticos. Acabaram com a geral. Tiraram o pobre do estádio. Elitizaram o entretenimento mais popular do Brasil.
Questões de segurança não justificam o fim da geral. Com um pouquinho de inteligência já seria possível viabilizar o conforto dos que frequentam a geral, tal como o bom andamento da partida. Não fazem isso porque não querem mais pobre no estádio. A intenção de exterminar a geral tem fundo plutocrático. E não me venha com groselha afirmando o contrário. Sem a geral, o futebol perde graça e encanto. A fortuna cobrada pelos ingressos nas arquibancadas e cadeiras inviabiliza o trabalhador de baixa renda de acompanhar seu time de perto. Só sobra para o cara ir para o boteco da esquina e torcer de longe.
Onde está um vereador ou deputado estadual de peito para propor uma lei que obrigue a volta da geral aos estádios de Goiânia e de Goiás? Cadê? Eles devem estar mais ocupados pedindo cortesias para a Federação Goiana de Futebol. Pedindo favores para as administrações dos estádios. Ou então envolvidos com a rotina de seus clubes de coração. Vai saber.
Enquanto isso, a geral fica sendo aquele espaço vazio e deprimente. Um vergonhoso latifúndio improdutivo, ávido por uma reforma agrária que devolva vida, charme e pobre aos estádios.