Goiânia – Dia 12 de junho é o Dia Nacional de Conscientização da Cardiopatia Congênita. Por que precisamos parar um dia pra refletir sobre algo tão importante?
A cada 100 bebês que nascem vivos, um é portador de cardiopatia congênita. Neste grupo encontram-se os mais variados tipos de malformações do coração, algumas doenças são tão graves que tornam-se incompatíveis com a vida sem o tratamento em tempo oportuno. Cerca de 48% dos achados em serviços de verificação de óbitos em crianças têm com causa “mortis” alguma cardiopatia, muitas vezes desconhecida até o desfecho trágico. É a terceira causa de morte em neonatos e figura entre as malformações mais graves da infância.
Os índices de mortalidade infantil revelam a importância dessa condição e é impossível pensar em reduzi-los sem enfrentar a real situação. Precisamos de diagnóstico precoce e tratamento adequado, em tempo adequado.
Desde maio de 2014 é obrigatório a realização do teste de oximetria de pulso em todos os nascidos vivos em território nacional: o teste do coraçãozinho. Este “teste” consiste na simples verificação da quantidade de oxigênio circulante na mão e pé do bebê, realizado com oxímetro de pulso, desta forma é possível triar os portadores de cardiopatia crítica antes da alta da maternidade. Cerca de 20% de portadores de cardiopatia congênita crítica deixam a maternidade sem o diagnóstico se este teste não for realizado e a grande maioria destas crianças não consegue voltar ao hospital a tempo para serem tratadas, indo a óbito. O diagnóstico precoce salva vidas!
E, ao fazer o diagnóstico, a criança precisa receber o tratamento adequado em tempo adequado, seja por cirurgia ou através de cateterismo cardíaco. Deve receber atenção do médico especialista: o cardiopediatra, que deverá acompanhar a criança ao longo de todo caminho e lutar juntamente com a família em busca de longevidade e qualidade de vida.
No Brasil são poucos os serviços capacitados para o tratamento dessas crianças. É necessário estrutura hospitalar adequada e equipe especializada. Temos em Goiás profissionais capacitados para esta tarefa, temos história e figuramos no cenário nacional como um dos poucos centros capazes de prestar atendimento em alta complexidade. Entretanto, nos falta muito para podermos nos orgulhar dessa história.
Funcionamos com sobrecarga de pacientes, falta de rede ambulatorial em cardiopediatria, não realizamos cateterismo cardíaco pelo SUS em crianças desde 2014, não dispomos de recursos em terapia intensiva cardiológica infantil nem métodos diagnósticos mais modernos, como angiotomografia e ressonância magnética, já consagrados em cardiologia. Mesmo métodos diagnósticos tradicionais, como o ecocardiograma, são pouco disponíveis ao paciente que utiliza o SUS.
Temos cardiopediatras, cirurgiões cardiovasculares, hemodinamicistas com especialização em cardiologia pediátrica, ecocardiografistas, especialistas em diagnóstico por imagem em cardiopatias congênitas, capacitados para dar atendimento e conduzir desde fetos até adultos portadores destas cardiopatias.
Então por que o Estado encaminha crianças portadoras de cardiopatias para tratamento fora de domicílio? Para São Paulo, Recife, Curitiba? Por que o Ipasgo assume uma postura de encaminhar pacientes para Brasília? Por que não investir aqui? Por que não nos dar condição de fazer o que sabemos fazer? Por que submeter as famílias, já tão sofridas, ao afastamento de seus lares e familiares?
O Estado de Goiás nos enche de orgulho na economia, no agronegócio, na sua pujança e prosperidade. Queremos nos orgulhar por inteiro! Queremos nos orgulhar da qualidade da assistência a saúde prestada às nossas crianças.
Estamos vendo esforços nesse sentido: a atenção dispensada ao Hospital Materno Infantil pelo nosso governador Ronaldo Caiado, a dedicação do Dr, Ismael Alexandrino, a luta particular do Dr. Zacarias Calil, que agora nos representa no Congresso Nacional. Já temos cinco meses de novo um governo e as crianças portadoras de cardiopatia congênita ainda não receberam o olhar especial que merecem. Ainda não temos um serviço público para atender essas crianças, ainda não temos cateterismo cardíaco para os nossos pequenos pacientes. Continuamos a vê-los encaminhados a outras unidades da federação.
Hoje é dia 12 de junho de 2019, Dia Nacional de Conscientização da Cardiopatia Congênita, e não temos motivo nenhum para celebrar. Viemos através desta, pedir atenção, pedir apoio, pedir ação!
Vivemos em um país que sofre. Sofre pela corrupção, pelo descaso com a saúde, pelo abandono, pelo desamparo aos que mais necessitam. Mas estamos vivendo novos dias, mudamos o rumo desse navio através do voto e temos a inabalável esperança que só o brasileiro sabe ter, sonhamos com dias melhores.
*Mirna de Sousa
é graduada em medicina pela UFG e especializada em cardiologia pediátrica