Logo

Memórias magnéticas

08.06.2019 - 08:10:19
WhatsAppFacebookLinkedInX

 
Se você tem por volta de 20 anos de idade, é provável que seu único contato com uma fita cassete (carinhosamente chamada de k-7) tenha sido através do filme “Guardiões da Galáxia”. É aquele negocinho que o tal Senhor das Estrelas usa para escutar música. Para os que tiveram tempo de comer um pouco mais de feijão na vida, a história é diferente. Os cassetes, principalmente em um mundo sem internet, levaram som para muita gente.
 
As fitinhas nasceram depois do vinil e antes do CD. Apesar do som inferior a estes dois formatos, duas vantagens se sobressaíam: portabilidade e preço. Logo, tudo quanto era artista estava lançando seus discos “também em cassete”.
 
Mas a grande onda do k-7 é que ele era (re)gravável! Você comprava uma fita virgem, botava no aparelho e era só apertar o rec para copiar músicas de um vinil, CD, rádio… ou mesmo outro k-7. Isso poderia ser repetido à exaustão. Uma gravação se sobrepunha à outra ad infinitum – ou até a fita arrebentar.  Uma revolução inimaginável para a garotada de hoje.
 
Nos áureos tempos do FHC, quando ninguém tinha grana pra nada, era só descobrir que algum amigo havia comprado um disco novo que lá íamos nós, em solene peregrinação, copiar o danado. Ouvir música tinha um caráter ritualístico.
 
Para os artistas, os cassetes tinham outra função. Eram o primeiro lugar onde registravam suas novas composições – para posteriormente apresentá-las à gravadora. Demonstration tapes. Ou, simplesmente, demo tapes.
 
Os anos 90 do século passado assistiram a uma explosão do Rock em terras brasileiras. As gravadoras eram incapazes de absorver tudo. Sequer estavam interessadas. Nascia aí o Rock independente. Indie.
 
Naqueles idos, gravar um CD era, por princípio, algo inatingível. Exigia quantidades colossais de dinheiro e estrutura. Baixas tiragens eram inadmissíveis para a indústria. Ainda bem que existia o k-7 para dar vazão ao espírito punk das bandas. Neste panorama, as demos deixaram de ser meramente material de demonstração para se tornarem lançamentos oficiais.
 
O começo, obviamente, foi tosco. O cara ia para um estúdio de ensaio e gravava as músicas sem maiores cuidados, geralmente utilizando um gravador portátil. A coisa avançou rápido. E logo todo mundo estava caprichando em registros mais profissionais.
 
O mesmo aconteceu com a apresentação das fitas. De capinhas escritas à mão, passaram para xerox, xerox colorido e impressão em gráfica, com encartes invocados. Algumas das demos da época são pérolas do design gráfico.
 
Uma rede se formou. Selos dedicados às demo tapes abriram suas portas. Em Goiânia, fez história a Sonic Records, embrião da longeva Monstro Discos. As fitas cruzavam Brasil e além através dos Correios – que mesmo estatal, já foi uma empresa de excelência.
 
O tiozão aqui vai repetir: eram tempos sem internet. Tomávamos conhecimento das bandas por meio de fanzines. Aí, você pegava uma grana (o equivalente a uns 15 reais, hoje), camuflava num envelope e mandava pro artista. O cara recebia, copiava a fita e mandava de volta para o comprador. O processo poderia demorar meses. Não tinha problema: a confiança movia tudo. O carteiro tocando a campainha era uma alegria diária. Uma vez meu pai mandou essa: “Pô, você recebe mais cartas que a Xuxa!”
 
Bandas amigas adotavam procedimentos de guerrilha na divulgação de seus trabalhos. Trocavam diversas capas entre si. E quando alguém comprava uma demo, no lado B da fita sempre ia outra. Viralização. Antes do termo existir.
 
Isso tudo dá a dimensão do que significava ser anternativo/indie/underground na década de 1990. Dar suporte à cena era uma lei que dispensava fiscais. Algo impensável nos dias de hoje, onde o máximo da colaboração – ao menos para a maioria – parece ser distribuir likes nas redes sociais.
 
O que pôs fim ao reinado das fitas k-7 foi o vertiginoso avanço das tecnologias digitais. Primeiro com o CD, que ficou cada vez mais barato. A última pá de cal veio quando os disquinhos passaram a ser graváveis em qualquer computador. Hoje, nem precisa. Tudo mp3 espalhado pela rede. A impressão é que ninguém ouve com a devida atenção. Foram-se os rituais. Não sei o que restou.
 
Uma coisa é fato: boa parte do que de melhor foi produzido no Rock brasileiro ao final do século 20 só existiu em demo tapes, completamente à margem da indústria fonográfica oficial. Devagarzinho, estamos assistindo a um renovado fetiche pelas fitinhas, bem como o surgimento de pesquisadores acerca daquele rico período de nossa história sonora. Arqueologia necessária. E divertida pra cacete.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

Mais Lidas
Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]