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À francesa

14.05.2012 - 11:09:55
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Parece cena de filme, mas aconteceu de verdade. No sábado fui a um pub de Goiânia e, no meio da noite, passei no banheiro para retocar a maquiagem. Vi uma moça esbravejando sozinha, enquanto olhava o celular, e achei engraçado. Ela me contou que o namorado havia sumido e que era impossível disfarçar a raiva.

Ao ouvir isso, outra moça que estava no banheiro também falou que estava chateada porque o namorado não dava notícias há 15 dias. De brincadeira, levantei a palma da mão para cima e disse: “Quem tiver um namorado ou marido fujão bote o dedo aqui!”. Todas as moças do banheiro responderam “Eeeeuuuu!” e puseram lá seus dedinhos.

Poucas coisas irritam tanto uma mulher quanto ter de adivinhar que o relacionamento acabou e precisar tomar a iniciativa de terminar oficialmente. Se eu fosse somar quantas amigas ou conhecidas reclamaram disso comigo nos últimos tempos, provavelmente precisaria de uma calculadora HP Profissional.

O homem decide que não quer mais, mas não assume isso. Para de atender aos telefonemas, inventa desculpas para não fazer programas em conjunto com ela, fica distante, evasivo… Entretanto, quando a mulher pergunta se existe algum problema, ele responde: “Não há nada, está tudo certo! É só cansaço e correria”.

Sem coragem para terminar o relacionamento, ele transfere a responsabilidade para a parceira e dá a ela milhares de motivos para que o faça. Torna a vida a dois um inferno, criando brigas e implicâncias sem razão, ou dá à mulher uma dose cavalar de desprezo, até que ela não suporte mais e acabe com tudo.

A ideia é sair à francesa, para que ela vá percebendo aos poucos que está sozinha. Como se fosse possível sair de fininho da vida de alguém com quem se ficou junto por meses ou anos. A menos que a mulher passe a sofrer de uma grave demência de um dia para o outro, é claro que ela vai notar a falta. E se ressentir dela.

Alguns amigos com quem conversei dizem que agem assim porque as mulheres “choram demais, ficam se lamentando”, e que isso gera um constrangimento grande, pelo qual os homens não querem passar. Para evitar a situação embaraçosa, eles prolongam a agonia até não poder mais, até a mulher roer a corda.

Tsc, tsc, tsc… Que coisa feia, rapazes! Quer dizer então que vocês fazem rapel, tirolesa, preenchem sozinhos o formulário de imposto de renda, correm milhares de quilômetros em maratona, pescam no Pantanal no meio de piranhas e onças, matam baratas, mas não têm coragem de enfrentar as lágrimas femininas?

Se formos parar para pensar friamente, é bom que elas chorem. Ou vocês prefeririam que, ao terminar o relacionamento, elas dissessem: “Ufa, que alívio! Olha, eu não ia dizer nada, mas já que você tocou no assunto, fiquei super aliviada! Não aguentava mais olhar na sua cara! Fuuuuuuui!”?!

Se ela lamenta o término, é sinal de que gostou de você e vai sentir saudades. E apesar da frustração, certamente prefere alguém que é sincero e diz claramente não quer mais, que um covarde que inventa desculpas para não assumir o término. Para as lágrimas, lenços Kleenex e tempo. Para a covardia, só Jesus na causa.

Terminar um relacionamento não é fácil, tampouco agradável. Mas é absolutamente necessário quando uma das partes decide que não há mais expectativa de satisfação ali. É sinal de maturidade e, sobretudo, de consideração com o outro. De respeito. Não há como pular essa etapa e sair à francesa.  

Quem empurra o término com a barriga mostra que não respeita os sentimentos do outro nem os seus próprios. Age com descaso em relação ao parceiro e a si mesmo, pois vai adiando a possibilidade de ser feliz para um futuro indeterminado, alimentando uma situação angustiante e desagradável, que fragiliza e desgasta quem está nela.

Às moças, uma dica: analisem as atitudes, não a fala dos fujões. Porque palavras, como já dizia a música, “são palavras, quase sempre traiçoeiras”. Quem gosta de verdade e quer ficar junto liga, comparece, se importa. Quem quer mesmo dá um jeito. Quem não quer dá uma desculpa. As palavras mentem, os atos raramente.

Para os rapazes, uma dica também: sejam corajosos e sinceros. Não é preciso humilhar nem citar detalhes sórdidos. Falar que a calcinha furada de algodão dela é broxante, que ela é pegajosa como um polvo ou controladora como um general é dispensável. Educação e bom senso cabem em qualquer lugar.

Mas dizer que não quer mais e que acabou é imprescindível. Na hora pode doer, mas depois passa. O mundo evoluiu muito, mas ainda não é possível dar um F5 no relacionamento e atualizá-lo automaticamente para o fim. O bom e velho respeito continua sendo o melhor remédio. Porque quem dividiu a cama, os sonhos e a vida com você por meses ou anos merece consideração. Ainda que seja só no final.

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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