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Em defesa do grande jornalismo

15.06.2019 - 07:45:00
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Não sou jornalista. Poderia ter sido. Acho, inclusive, que gostaria. Contudo, num desses descaminhos da juventude, acabei me formando em Engenharia Civil. Engenharia Civil.
 
Dez anos após concluir a graduação – de uma profissão que, obviamente, nunca exerci –, me meti num mestrado em comunicação pela UnB. Foi ótimo. Não me transformou em jornalista, mas me fez virar professor na área. Sinto orgulho de ver alguns ex-alunos atuando, com destaque, nesse mercado.
 
Nas aulas, sempre defendi uma postura tida como polêmica. O instrumental básico para ser jornalista é (relativamente) simples: saber ler e escrever. Logo, sou contra a exigência de diploma para se trabalhar neste campo da comunicação. É de se imaginar que eu não fazia muito sucesso com os donos da faculdade.
 
Tolice. Na real, este posicionamento é a maior defesa do curso superior em jornalismo que sou capaz de conceber. Se você pretende trabalhar em uma profissão onde qualquer pessoa alfabetizada tem condições de ocupar vaga, o que faz a diferença é a bagagem que carrega consigo. Um sujeito que entende de arte, cultura, política, filosofia, direito, matemática e o escambau, certamente será um jornalista melhor que aquele que não domina tais conhecimentos. E não conheço lugar melhor que a universidade para adquirir essa bagagem.
 
O fato é que o grande jornalismo está em clara decadência. Um país que é contra a educação não pode obter resultados diferentes. A vida é complexa. Para quem é analfabeto funcional, ela se torna um enigma incompreensível. Daí que não é surpresa a existência de gente que realmente crê em terraplanismo.
 
Quando pessoas trocam o jornalismo por memes de whatsapp como fonte de “informação”, é sinal de que a coisa está feia. Para elas, não para quem detém o poder.

Já prestaram atenção no modo como o William Bonner apresenta as notícias no Jornal Nacional? Dá uma olhadinha lá e me diga se não parece que ele está se dirigindo a um retardado mental.
 
O grande jornalismo, para mim, sempre foi sinônimo de aventura, coragem e defesa do ser humano. Pode salvar vidas. Mudar o mundo. Penso em Watergate. Nas tretas enfrentadas por Caco Barcellos. No fim que levou Tim Lopes. Profissão de risco.
 
Cada vez menos temos visto grande jornalismo. No rame-rame do dia a dia, a assessoria de imprensa é soberana. Só que assessoria de imprensa não é jornalismo. É propaganda. E quando não entendemos essa diferença, estamos comendo na mão de algum poderoso.
 
Mas nem tudo está perdido. Esta semana, Glenn Greenwald e seu The Intercept sacudiram essa terra sem lei. Não é a primeira vez que o gringo faz isso mundo afora. Snowden que o diga.
 
Com seu Pulitzer a tiracolo, Greenwald deu início a uma série de reportagens baseadas no vazamento das conversas entre o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro, e o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da operação Lava-Jato. Onde deveria existir imparcialidade, promiscuidade. Fôssemos um país sério, os dois garotões de cara lambida já teriam tirado seu time de campo.
 
Não que o caráter da Lava-Jato seja um mistério para qualquer pessoa razoavelmente esclarecida. A diferença é que agora existem sinais claros e inequívocos daquilo que muitos já vislumbravam. E é só o começo. 1%, disse a turma do The Intercept.
 
Num país barra-pesada como o Brasil, é admirável a coragem de Glenn Greenwald. Seu parceiro, o deputado federal pelo PSOL David Miranda, já foi ameaçado de morte. Mas coragem é matéria-prima essencial ao verdadeiro jornalismo. Como o próprio Greenwald disse em entrevista à Pública: “(…) o que podíamos fazer? Têm jornalistas cobrindo guerras. Têm jornalistas sem visibilidade investigando corrupção contra pessoas muito perigosas. Se você não quer esses riscos, você não deve fazer jornalismo.”
 
Não faço ideia dos resultados desta investigação – produzida, até aqui, sob rigorosos critérios éticos. Difícil afirmar se ajudará a tirar o país do tenebroso abismo em que se encontra. Da minha parte, já sou extremamente grato a Glenn Greenwald por provar que o grande jornalismo ainda é possível. E, mais do que nunca, necessário.

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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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