Pesquisar é o ato de investigar, buscar dados, interpretar resultados e levantar hipóteses. A pesquisa em si é uma tarefa árdua que permeia a realidade de muitos universitários, sendo eles das áreas de exatas, humanas ou biológicas, somente para ficar nesta divisão mais conhecida. Três áreas ricas em conteúdos que precisam ser destrinchados para o nosso desenvolvimento social e tecnológico.
O fato de atuais figuras públicas desmerecem os trabalhos científicos produzidos dentro do âmbito acadêmico, principalmente, das áreas das humanas, perpetua uma imagem negativa sobre os resultados obtidos por meio do investimento de tempo, intelecto e financeiro da comunidade acadêmica. Tal fato mostra a necessidade de dissertar e discutir sobre a importância dos resultados provindos da arte de fazer ciência e construir conhecimento.
Como pesquisadoras vinculadas à graduação em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda, na Universidade Federal de Goiás e ao Programa Institucional de Iniciação Científica, colaboramos com a produção de conhecimento dentro de uma das áreas atualmente mais questionadas pela comunidade não acadêmica, a sociais aplicadas em diálogo com as humanidades. Por isso, há a urgência de argumentar sobre a relevância dos estudos sociais nos espaços midiáticos.
Por meio da pesquisa, nesta área, é possível conhecer o humano, seus comportamentos comunicacionais, suas preferências, os formatos e gêneros inovadores, mas nem sempre é possível apontar um resultado exato, pois não há fórmulas que resolvam as questões filosóficas, sociológicas e antropológicas. É delicado e complexo, mas toda investigação gera conhecimento. Conhecimento necessário para construir uma sociedade que possa crescer com capacidade reflexiva. O que é isso? É dar valor a sua história e ao seu passado, que é o responsável pelo presente. Ao investigar o passado e presente, que se fará um futuro para além de sobreviver, viver.
O assunto da nossa investigação, por exemplo, trata sobre o racismo no cinema, que é uma das discussões que perpetua e gera polêmica pela questão “Ainda existe?”. No cotidiano brasileiro, diversos episódios conseguem exemplificar a existência do racismo velado, mas está tão permeado socialmente que não percebemos.
A Agência Nacional do Cinema, Ancine, em meados de 2016, publicou uma pesquisa que confirmou, estatisticamente, a ausência extrema da participação de, por exemplo, diretoras negras em obras cinematográficas nacionais. Diante deste panorama apresentado pela Ancine, o recorte da nossa pesquisa foi direcionado para a plataforma Porta Curtas, uma stream que apresenta e divulga produções cinematográficas brasileiras, disponibilizando gratuitamente um catálogo rico em curtas nacionais, disponibilizando o acesso à informações e a alguns curtas. Ao realizar a pesquisa foi possível perceber uma recorrência nas preferências dos usuários do site para curtas do gênero erótico e documentário. E também a recorrência de representações de personagens negras em posições estereotipadas, como a da pobreza, miséria e a do samba.
Assim, é importante refletir sobre os hábitos comunicacionais e os âmbitos sociais nos quais nos inserimos ou somos inseridos. Pois eles espelham como vemos o nosso cotidiano, já que, na maioria das vezes, concordamos com aquilo que cultivamos. Em termos culturais, aquilo que está dentro da nossa rotina comunicativa se normaliza, podendo passar despercebido, até um momento que nos questionamos “Ainda existe racismo no cinema?”. Assim, quando nos colocamos o desafio de enxergar o que não vemos, é perceptível como é necessário o ato da investigação para refletir sobre a realidade do não visto, para apresentar dados sobre esse cenário que transmite a desigualdade racial e prejudica o desenvolvimento de uma sociedade mais justa.
Samla Mesquisa é pesquisadora vinculada ao Programa de Iniciação Científica, área de Ciências Sociais Aplicadas, da Universidade Federal de Goiás
Lara Satler é pesquisadora orientadora, que investiga o audiovisual na web