Nunca tive dúvidas com relação à minha inteligência. Embora não seja nenhum Einstein, tirei boas notas na escola, passei de primeira no vestibular e concluí meu mestrado satisfatoriamente. Sempre fui aquele tipo de pessoa que pega as coisas no ar, para quem não é preciso repetir a mesma história muitas vezes.
No entanto, nos últimos tempos ando seriamente desconfiada da minha capacidade de cognição. Para dizer claramente, acho que fiquei burra. Essa sensação é reforçada a cada vez que estou no trânsito, em Goiânia. Basta entrar no carro e sair pelas ruas, que começo a me sentir uma verdadeira ameba retardada.
Na semana passada, por exemplo, ao passar pela Rua 1, em frente ao Bosque dos Buritis, reduzi a velocidade, pois vi que uma senhora aguardava para atravessar a faixa de pedestres. Diante do sorriso dela, pensei ter feito a coisa certa. Mas ao ouvir o xingamento do motorista de trás, minha certeza caiu por terra.
“Ô tia, larga de ser burra! Quase bato meu carro no seu!”, gritou ele. Gente, eu jurava que era preciso parar na faixa de pedestre quando alguém fosse atravessar! Achei que tivesse lido isso em algum lugar, que fosse lei. Entretanto, como recebo vários xingamentos desse tipo quando respeito a faixa, percebi que estou errada.
A mesma coisa acontece quando evito parar no cruzamento onde há faixas amarelas no chão. Na minha santa burrice, a sinalização era um indicativo de que não se podia bloquear a passagem, de que aquela área era facilmente congestionável e precisava ficar livre. Mas quando paro diante dele, ouço buzinas e sou chamada de imbecil.
Outro suplício é respeitar o semáforo, principalmente quando, ao lado dele, há um radar que fotografa as placas dos carros que ultrapassam no momento errado. Se a luz amarela se acender e eu reduzir a velocidade, é certeza que vou escutar o motorista da traseira me xingar de santa e rapadura.
Mas o pior mesmo é a tal da seta. Eu poderia jurar por tudo o quanto é mais sagrado que ela deveria ser acionada todas as vezes que eu quisesse mudar de pista. Só que essa ideia é totalmente falsa, pois, todas as vezes que faço isso, o condutor de trás acelera o carro e me impede de fazer a mudança.
Estacionamento em porta de garagem é outra prova da minha ignorância. Sempre pensei que nesses locais fosse proibido estacionar. Porém, na semana passada, quando uma condutora deixou seu carro parado em frente à minha garagem e, ao ouvir minha queixa, me fez aquele sinal bonito com o dedo, vi que não é nada disso.
Também me dou conta de que não entendo patavinas de legislação de trânsito quando reduzo a velocidade ao passar na porta da escola que fica perto da minha casa. Tinha uma vaga lembrança do instrutor de auto-escola me alertando para o risco de atropelar uma criança se corresse. Mas diante dos carros que passam feito foguetes, percebo que isso é uma balela.
Quando me lembro dos prêmios que ganhei ao longo da minha carreira como jornalista, alertando para o respeito à faixa de pedestre, para o fato de não dirigir embriagado e de respeitar a legislação, concluo que foram alucinações da minha mente. Acho que eu era usuária de alguma droga pesada e não sabia.
O antropólogo Roberto DaMatta tem uma tese para o fato de o brasileiro ser um desrespeitador compulsivo das leis de trânsito. Segundo ele, “não temos educação, do ponto de vista da igualdade. Obedecer no Brasil significa subordinação e inferioridade. Quem é superior não obedece.” Então é isso: além de burra, ainda tenho complexo de superioridade. Socorro!
Estou pensando seriamente em consultar um psiquiatra. Tudo o que eu achava que era válido, em termos de leis de trânsito, na verdade não é. Eu e alguns outros gatos pingados ficamos dando cabeçadas nas ruas e passando vergonha com nossos equívocos. Talvez seja o caso de eu começar a tomar Rivotril.
Chateada com tudo isso, vou para a sacada do meu apartamento para respirar um pouco. Vejo um terrível acidente, provocado por um motorista que furou um sinal e chocou seu carro contra outro. Há vítimas presas nas ferragens. Pessoas começam a gritar e, em poucos minutos, o Samu chega para fazer o resgate.
Nessa hora, me dou conta de que meu carro está inteirinho na garagem. E de que, em todos os anos que dirijo, nunca me feri nem feri ninguém. Cheguei até a receber bônus da seguradora por não ter registro de sinistros. Que Rivotril, que nada. Desisto de ser inteligente. Pensando bem, até que ser burra tem suas vantagens.