João Gabriel de Freitas
Kassin (nome artístico de Alexandre Kassin, 37 anos) não é um cara com contexto fácil de se definir. Na verdade, fora os óculos de massa, o jeitão nerd e os fones do iPod ligados direto no ouvido, as canções criadas pelo multi-instrumentista carioca escapam fácil de qualquer rótulo seguro. Pop-futurista-erótico, pegadas de bolero ou jazz.
Tarimbado como produtor de artístas diversos (entre eles Caetano Veloso, Adriana Calcanhoto, Los Hermanos, Vanessa da Mata e a fila segue) e peça do tripé +2 (que resultou em três álbus com Domenico e Moreno Veloso), Kassin assombrou 2011 com o seu primeiro álbum solo, Sonhando Devagar (Coqueiro Verde). O nome é mais que explicativo. Envolto em camadas sonoras quase abstratas, que sobrepostas conferem uma atmosfera bastante nebulosa, o álbum foi se criando partindo de ideias colhidas nos próprios sonhos de Kassin. Cravou como um dos principais lançamentos do ano.

Primeiro álbum solo de Kassin, Sonhando Devagar, eleito um dos melhores de 2011 (foto: divulgação)
Aos poucos, o ambiente criado por Kassin em Sonhando Devagar vai se propagando fora do eixo Rio-São Paulo, atesta o cantor, em entrevista exclusiva ao jornal A Redação. Ele tocou em Pirenópolis, no Canto da Primavera (2011) e também já se apresentou na capital, no Goiânia Noise de 2007, com o projeto Kassin+2, mas pela primeira vez executa por aqui as canções do trabalho mais recente. Depois de passar por Brasília, chega a Goiânia nesta quinta-feira (24/5), no projeto Música Consciente, realizado no Centro Cultural da UFG (veja serviço abaixo). Na entrevista, Kassin falou sobre seu processo criativo, preferências musicais, a posição assumida de frontman de uma banda e sonhos que deram origem a músicas – como a pop-erótica Calça de Ginástica.
Confira abaixo a entrevista
A Redação – Você esteve ano passado em Pirenópolis (Canto da Primavera), agora casando shows em Brasília e Goiânia. Como você vê o seu som saindo do eixo Rio-São Paulo? Isso te surpreende de alguma forma?
Kassin – Cara, vejo com muita felicidade. No +2 (projeto elaborado com Domenico e Moreno Veloso, que gerou três álbuns) poucas vezes saímos das capitais na Região Sudeste. Na verdade, no +2 fizemos mais shows fora do Brasil do que aqui, então não conhecia com profundidade a recepção das músicas em outros locais. Os shows tem sido muito bons. Tocamos agora em Salvador, o pessoal cantando junto, pedindo músicas.
A Redação – “Sonhando Devagar (2011)” foi o seu primeiro projeto solo, vindo apenas com seu nome. A boa recepção do álbum te deu mais confiança como compositor ou ainda há uma certa insegurança?
Kassin – Até que não mudou muito o ponto de vista sobre as composições por que esse disco, assim como os outros projetos, também partiu de um processo criativo conjunto. Sem os outros caras da banda ele hoje não existiria. Oh eles aqui do lado, agradecendo (risos).
"O projeto (Sonhando Devagar) partiu de um processo
criativo conjunto. Sem os outros caras da banda ele não existiria"
A Redação – Como se dão os seus “insights” na criação de uma música? Ela já vem praticamente pronta ou apenas pílulas que vão sendo trabalhadas?
Kassin – Até que tenho idéias bem definidas das músicas. Acho que pelo fato de trabalhar muito como produtor, costumo saber bem onde quero chegar, a sonoridade que vai ter. Normalmente tem início no som, no riff da música, mas tenho também ideias de letras anotadas, alguns versos que vou guardando e quando vou fazer até que é rápido.
A Redação – Mas nesse processo costuma descartar muito material?
Kassin – Ah sim, descarto muito, as vezes nem tanto pela qualidade da música, mas pela ideia geral do projeto. Por exemplo, para o álbum (Sonhando Devagar) chegamos a gravar 15 músicas, mas somente 10 entraram, pelo som, pela atmosfera que tem todo o CD. Chegamos a gravar um samba com o Wilson das Neves (lendário sambista carioca) que ficou lindo, mas não encaixava com as demais. Praticamente todas foram baseadas em sonhos que tive e ia anotando a ideia, somente duas que não surgiram assim.
"Chegamos a gravar um samba com o Wilson das Neves,
que ficou lindo, mas que não encaixava"
A Redação – A música “Calça de Ginástica” veio assim? É autobiográfica?
Kassin – (Risos). Foi sim, foi um sonho que eu tive. Estava numa festa em que todo mundo estava usando calça de ginástica, até eu. Era estranho por quê tinha uma galera de jiu jitsu também, do MMA mesmo. Aí chegou em mim uma menina, com a calça, dizendo: “Ah, meu pai gosta muito de música e quer falar com você”. Beleza, quando olhei era o César Maia (ex-prefeito do Rio), com calça de ginástica branca, aquele casaquinho que ele usa (risos). Aí começamos a falar sobre música clássica e também sobre a Cidade da Música, aquele projeto gigantesco que não sai do papel. Ele ficava falando de como seria monumental e eu perguntei: “Nossa, imagina o tamanho do banheiro de paraplégicos desse lugar?”. E ele: “Do tamanho de um quarto!”. Hahahaha.
"Quando olhei, era o César Maia, com calça de ginástica branca
e aquele casaquinho que ele usa"
A Redação – Atualmente você se sente mais à vontade como frontman, produtor, clipmaker?
Kassin – Até que me sinto confortável no palco, como frontman. Mas não sou um frontman clássico, exuberante. Não vou dançar no palco, até mesmo por quê não faço uma música fácil de execução. Tem muito detalhe, concentração. Então no show não me sinto um frontman, mas um catalisador no processo de transmissão daquele recado. Só ajudo a passar a mensagem, assim como minha voz.
A Redação – Seu disco veio carregado de sonoridades diversas, pop, bolero, uma pegada jazz também, o que deixa bem aberto no processo de identificação de influências. O que normalmente você costuma ouvir? Classifica alguma referência fundamental?
Kassin – Olha, ouço meio que de tudo. Normalmente, em casa, como trabalho com áudio, escuto coisas diferentes das quais estou trabalhando ou produzindo, bem diferentes. Então isso depende muito da semana. Tem a semana metal, tem a semana de música clássica.
Tem a semana metal, tem a semana de música clássica"
A Redação – Depois de concluído, costuma ouvir o seu próprio material?
Kassin – Ouço o meu trabalho mais como um refrescamento de ideias, para tentar não me repetir, ver se não estou fazendo do mesmo jeito alguma coisa. Durante a feitura de um disco a gente passa 1 mês e meio ouvindo e tocando aquilo sem parar. Hoje mesmo poderia tocar coisas que gravei há anos.
A Redação – Tem alguma vontade de retomar projetos como o +2 (dos álbuns Kassin+2, Domenico +2 e Moreno +2), ou dar uma nova roupagem à ele, com outros convidados?
Kassin – Ah, tenho vontade de fazer tudo. Faria tudo de novo. As parcerias com o Moreno e o Domenico se distanciaram mais por uma questão de agenda e distância também. Moreno mora em Salvador. Domenico está no Rio e sempre produzimos alguma coisa juntos.
A Redação – Há algum álbum ou artista que tem te chamado a atenção?
"Ah, tenho vontade de fazer tudo. Faria tudo de novo"
Kassin – Tem muita coisa boa surgindo. Pensando nacionalmente, tenho gostado muito de uma banda do Rio chamada Dorgas (veja o vídeo). Teve também lançamento recente da SILVA (projeto do músico capixaba Lúcio da Silva Souza). Mas vejo também muita coisa boa que não foi gravada ainda. O Alberto Continentino (baixista da banda de Kassin), por exemplo, tá finalizando um CD muito bom, faço duas parcerias e com previsão para esse ano. É até difícil selecionar por quê tem muita coisa, só para falar de música a gente tinha assunto pra ficar o dia todo conversando.
Confira abaixo Kassin ao vivo, tocando Calça de Ginástica
EVENTO: Música consciente
SHOW: Kassin
DATA: 24 de maio (quinta-feira)
HORÁRIO: 21h
LOCAL: Centro Cultural UFG (Praça Universitária)
INGRESSOS: R$ 30,00 (inteira)
R$ 15,00 (meia)
Postos de Venda: Livraria da UFG e Restaurante TRIBO