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O que é pior que um filho gay?

28.05.2012 - 11:01:10
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Duas mensagens enviadas por leitores na semana passada me sensibilizaram muito. Ambos homossexuais, uma moça e um rapaz, me relataram a angústia de esconder sua orientação sexual da família e pediram ajuda, no sentido de orientá-los sobre a melhor forma de contar isso aos pais. O fato de não ser psicóloga e de ser heterossexual fez, inicialmente, com que eu me julgasse incapacitada para auxiliá-los. Mas como não acredito em coincidências – e receber duas mensagens com o mesmo tipo de conteúdo na mesma semana é, no mínimo, estranho – pensei que talvez tivesse chegado a hora de falar sobre isso.
 
E lá fui eu conversar com meus grandes amigos homossexuais, para saber como revelaram para a família sua orientação sexual e que tipo de conselho dariam para quem está vivendo esse momento agora. Será que realmente é preciso contar a verdade? Todos foram unânimes na resposta: sim, é preciso. Se a pessoa tem certeza de que sente desejo por alguém do mesmo sexo, não faz sentido esconder esse fato dos familiares. E se já é difícil o próprio homossexual contar isso aos pais e irmãos, a coisa fica ainda pior se for dita por um terceiro elemento, alguém de fora do núcleo familiar. A sensação de traição dos parentes é maior.
 
Sim, eu disse maior. E essa palavra não veio por acaso. Conforme os amigos gays e lésbicas com quem conversei, todos os pais se sentem traídos no momento da revelação da homossexualidade dos filhos. Acham que foram enganados, pela vida e pelos seus, e são acometidos por um ataque de ira, seguido de muita tristeza. Segundo a professora universitária Edith Modesto, autora do livro “Mãe sempre sabe? Mitos e verdades sobre pais e seus filhos homossexuais” e fundadora do Grupo de Pais de Homossexuais (http://www.gph.org.br/), a sensação que ela teve ao saber que o filho era gay foi de luto, e a dor comparada à de “uma operação sem anestesia”.
 
Toda a idealização que os pais faziam dos filhos cai por terra. É como se aquela pessoa não fosse a criança gerada e criada por eles, o ser para quem se sonhou um futuro perfeito. A reação é de estranheza e confusão. É como se o filho amado tivesse morrido e dado lugar a um outro, absolutamente desconhecido. Nessa hora, julgamentos são inúteis. Dizer que ele ou ela é promíscuo (a) e doente só vai piorar as coisas. Isso porque o próprio homossexual se culpa e se julga, muitas vezes com mais crueldade e dureza que qualquer outra pessoa. A autoaceitação é uma das etapas mais difíceis do processo. 
 
Buscar curandeiros, médicos ou religiosos para alterarem a orientação sexual do filho também não é boa ideia. Desde 1973, a homossexualidade não é mais considerada uma doença física nem um problema psicológico. Com base em estudos, há quase 40 anos a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade do seu Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Distúrbios Mentais, demonstrando que ela nada mais é do que uma variação possível e legítima da manifestação do desejo sexual.
 
Seguindo a mesma linha, desde 1985, o Conselho Federal de Medicina passou a não considerar a homossexualidade uma doença mental ou física. Além disso, em 1999, foi publicada uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que normatizou a conduta dos psicólogos quanto à questão, determinando que eles “não colaborarão com eventos ou serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”.
 
Como se vê, o filho ou filha que revela aos pais que é homossexual não está doente. Entretanto, há ainda um outro aspecto sobre ele que talvez os pais não percebam, mas que é de profunda importância: o caráter dessa pessoa continua o mesmo, bem como o amor e o respeito que ela nutre pela família. Uma prova de que os pais não falharam na educação que deram ao filho ou filha homossexual é o fato de eles quererem compartilhar com quem está dentro de casa a verdade sobre sua orientação sexual e se preocuparem com o impacto que essa revelação terá sobre a família. É sinal de honestidade e sensibilidade. 
 
Ser heterossexual também não é mérito algum. Fosse assim, não haveria tantas mulheres espancadas por seus maridos, tantos homens traídos por suas esposas, números crescentes de divórcios entre os casais ditos “normais”. Como bem disse Caetano, de perto ninguém é normal. Edith Modesto ensina que “temos de matar partes nossas para aceitar aquele (a) 'novo (a)' filho (a). Matar conceitos que tínhamos, maneiras de ser que acreditávamos serem as únicas; temos de matar os sonhos que construímos para ele (a)…Reinventar-se é construir uma nova identidade para nós, mais ou menos o que nossos filhos tiveram de fazer para eles”. Tarefa árdua, mas plenamente possível.
 
Um amigo meu nunca vai esquecer do dia em que contou ao pai que era gay. Coberto de ódio e decepção, ele gritava: “Meu Deus, por que não matou meu filho? O que é pior que um filho gay? Não há castigo mais terrível que esse!”. Disse isso e expulsou sumariamente o rapaz de casa. Meu amigo foi morar com o namorado, um enfermeiro íntegro e esforçado. Algum tempo depois, o pai viu a filha caçula abortar um bebê de cinco meses, em decorrência do espancamento que sofreu do marido. E também assistiu ao drama do filho mais velho, que, em função do comodismo da nora, que se recusava a trabalhar e gastava demais, fora internado no hospital com estresse agudo. 
 
Nesse período, a mãe do meu amigo teve câncer. A família era pobre e não possuía plano de saúde. Foi então que o namorado dele conseguiu, no hospital em que trabalhava, que um dos donos, um grande oncologista, atendesse a senhora doente de graça. Quando ela estava no quarto debilitada, era o enfermeiro que seu marido odiava quem cuidava dela com carinho e atenção. Grato pelo carinho e atenção do namorado do filho a sua esposa, hoje o pai do meu amigo diz que a pior coisa não é ter um filho gay: é ter um filho infeliz, que não sabe escolher uma boa pessoa para se relacionar. 
 
Quando há amor genuíno é sempre possível buscar formas de superar as diferenças. Por mais difíceis e dolorosas que pareçam, elas serão sempre menores que o afeto verdadeiro. Porque, no final das contas, o que nos distingue, o que nos torna melhores ou piores, não é o que temos entre as pernas, mas o que trazemos dentro do peito.
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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