Goiânia – Esta semana a cidade de São Paulo viveu um dia de caos. A chuva, que veio forte, inundou ruas e avenidas, invadiu casas, comércio, provocou milhões de reais em prejuízo, e ainda fez vítimas fatais.
Mas será que a água, a chuva, os rios, são mesmo os culpados por toda esta destruição?
Há poucas semanas Belo Horizonte vivia o terror provocado pelas águas em fúria. O Rio de Janeiro ainda sofre os reflexos das chuvas de 2019. Avenidas importantes fechadas, famílias desfeitas e um sentimento de medo toma conta de milhões de brasileiros toda vez o que céu escurece.
Mas voltando um pouco na história, nossas cidades sempre quiseram esconder o que a natureza já tinha colocado ali há séculos. Rios canalizados, escondidos embaixo de avenidas, morros rasgados para passagem de rodovias, cicatrizes deixadas por moradias em várias encostas país afora.
O rio necessita de espaço toda vez que chove. O nível de água sobe e isso acontece desde que o mundo é mundo. Mas o ser humano, na sua sabedoria ignorante, acredita que é capaz de dominar tudo, invade o espaço que é do rio e não quer que ele se transborde quando fica cheio demais. Casas são construídas ás margens de rios e córregos e toda vez que chove a tragédia acontece de novo.
Assim é nossa vida. Somos um rio que necessitamos de espaço para transbordar quando necessário. Na maior parte do tempo seguimos nosso curso dentro do que é considerado normal. Mas em algumas épocas somos sobrecarregados e ai acabamos por transbordar. E quando nosso espaço está tomado pelas "construções" dos acontecimentos a gente acaba estragando e machucando muita gente.
Por isso temos também que respeitar o espaço do outro. Precisamos manter uma distância segura do "rio da vida" de outra pessoa. Quando estamos próximos demais em um momento em que este rio está sobrecarregado, ele virá com toda fúria e provavelmente vamos nos machucar.
Muita gente fala que saiu com os sentimentos machucados de alguma relação. Talvez a gente pense que estamos fazendo o certo, com todo amor e carinho, mas talvez estamos fazendo isso no "lugar" errado, ou na época inadequada. O rio do outro vai transbordar, vai inundar você com tudo que ele tiver carregando. E neste momento você pode se ferir e ainda colocar a culpa no rio alheio.
Que tenhamos sabedoria para saber ocupar os espaços seguros que nos são oferecidos. Nada de se arriscar onde tudo pode desmoronar, onde tudo pode inundar. Nem sempre terá alguém para nos resgatar. Em alguns casos a destruição pode ser tão grande que não terá mais como reverter.
Não seja como um entreposto de alimentos construído próximo demais ao rio. Quando ele transbordar e invadir o espaço que era dele inicialmente, você não terá direito de cobrar nada. Não seja como o asfalto que cobre tudo. Quando o rio que passa por baixo dele estiver sobrecarregado, ele vai dar um jeito de reocupar o espaço que inicialmente era dele.
A culpa não é da chuva que cai ou do rio que transborda. A culpa é nossa que insistimos ocupar o lugar errado e ainda acreditar que tem algum direito sobre isso.
Então não ocupe margens de rios e córregos, não se aventure em construir nas encostas, assim como também não se aventure em ocupar espaços que não são seus na vida de ninguém. Ocupe apenas o tamanho do "terreno" que lhe foi dado. Não ultrapasse o limite de segurança. Caso você se atreva a fazer isso e algo de ruim acontecer, você só poderá assistir toda a destruição, e ainda torcer para não sair ferido.
*Fabrício Santana
é jornalista com especialização em Comunicação e Multimídia pela PUC Goiás