Goiânia – Em tempos de restrição à circulação, para não ajudar na propagação do novo coronavírus, a televisão se torna uma grande aliada e, depois de muita procura, nos oferece opções interessantes.
Neste sábado à tarde vi, por acaso, sem qualquer indicação, o filme “303”, lançado na Alemanha em julho de 2018, com direção de Hans Weingartner, música de Michael Regner e roteiro do diretor Weingartner e de Silke Egger.
O europeu tem a tradição de viajar muito, em especial dar carona, e o roteiro é construído a partir daí, quando dois jovens se encontram num posto de gasolina. Jule (Mala Emde) aceita levar Jan (Anton Spieker) no velho ônibus, Mercedes 303, montado como uma casa, com mesa, cadeiras, cama, banheiro, fogão etc., que era do irmão e que ficou para ela com o falecimento dele.
Como é próprio nesses momentos, começam a conversar sobre assuntos de sua área de formação escolar, cada um expondo suas opiniões, com os naturais desacertos de quem ainda não se conhece, defende intransigentemente suas ideias e ganha uma dinâmica interessante nesses primeiros acertos.
Os dois, bonitos e simpáticos, têm a mesma idade, 24 anos, e são de áreas de estudo diferentes – ela, de Biologia; ele, de Ciências Políticas. Viajam com objetivos específicos – ela para se encontrar com o namorado em Portugal e anunciar que estava grávida, e ele, cansado do menosprezo do padrasto, decidiu conhecer o pai biológico na Espanha –, e vão expondo suas ideias, às vezes discordando, em momentos se arrependendo de suas atitudes imaturas e vão estabelecendo um bom diálogo.
Um aspecto que me chamou a atenção, nos diálogos, foi quando ela defende que a cooperação promove a evolução, ao contrário do que sempre aprendemos, desde criança, a nos preparar para a competição. Somos testados, a todo instante e em todos os aspectos e atividades, para mostrar nossa capacidade, nossa inteligência, nossa beleza etc. Ele, naturalmente, discordou e o debate permitiu a introdução dessa questão em nossa agenda, pois se torna muito oportuna, na medida em que o tema vai de encontro a mudanças significativas no mundo atual.
Cito um dado para análise nessa discussão: não somos orientados e nem estimulados a guardar dinheiro, a criar uma poupança para o futuro, de forma a ter condições de enfrentar os embates que vão surgir.
Na Europa e nos Estados Unidos esse assunto chega mais cedo na formação dos jovens, já nas escolas. Os exemplos são numerosos e permitem que cada um se organize e se estruture financeiramente na área em que irá atuar.
Claro, o filme não aprofunda nesse tema, apenas dá uma pincelada, mas que se torna momentâneo comentá-la, em especial agora que estou concluindo um trabalho muito pertinente, que trata justamente da questão financeira. Os advogados goianos, que vêm de uma união entre eles que permitiu avanços significativos em sua atividade, foram ousados e em pouco mais de 20 anos, aprendendo na rotina diária, criaram e consolidaram uma Cooperativa de Crédito que é modelo no país.
O filme é interessante, prende a atenção desde o início e mostra como dois jovens passam a se conhecer a partir de suas ideias e de suas discordâncias.
Gostei e recomendo.
Jales Naves é jornalista e escritor, integra a Associação Goiana de Imprensa e a Academia de Letras e Artes de Caldas Novas