Goiânia – Ainda temos bem vivas na memória as platitudes ditas por uma antiga presidente do Brasil. Houve quem dissesse que ela teria algum tipo de dislexia ou mesmo que o medicamente para tratamento contra um câncer lhe tivesse perturbado o raciocínio.
Nossa amiga falava de mandiocas, de tornar estático o ar em movimento, de crianças e cães – a lista é longa! Havia teorias malucas, misturas de contextos e delírios lógicos. Mas se aquela moça dizia bobagens completamente inofensivas – a não ser pelo fato de saírem da cabeça de alguém num cargo de liderança! –, motivadas talvez por uma deficiência de raciocínio, estamos agora diante de um caso bem diferente.
E não é de hoje, seu Jair também vem se notabilizando por suas platitudes e bobagens. Repete lugares comuns e obviedades todo o tempo: diz “não sou médico”, sim, bem o sabemos; conclui que “vamos morrer”, mas é claro que vamos!
Mas diferentemente daquela presidente, aqui o caso não é apenas de problemas de raciocínio ou déficit de cognição. Para além das obviedades, seu Jair traz a público o pior das frases feitas, dos lugares comuns, faz reviver em nós o pior de nós mesmos. As falas de seu Jair trazem à tona pensamentos mórbidos surgidos como defesa a nossos temores e medos diante do diferente, do desconhecido: “Tem de enfrentar o vírus como homem. Não como moleque!” é frase antiga, velha conhecida de machos em suas bravatas, anunciada aos brados como defesa a algo indefensável, como afirmação taxativa diante do fim dos argumentos.
Aplicada no contexto, a frase contém a loucura de partir da premissa de que um vírus, um agente biológico possa ser enfrentado. E não só enfrentamento, mas com heroísmo! Mas qual seria o heroísmo possível diante de uma doença?
Já tive muitas gripes, talvez mais de uma centena. Não sei se as enfrentei como herói. Sei que em algumas delas sofri bastante, dores pelo corpo, indisposição e desânimo. Lembro-me bem de em uma ocasião ter durado três infinitos dias! Pois um herói, homem adulto, maduro teria conseguido reagir à indisposição, não sentir dores?
Outra premissa de nossa frase é a de que espécimes masculinos podem ser homens ou moleques. Aparentemente só se tornariam homens diante de um caso de heroísmo. Antes disso, não passam de moleques.
Convém ainda tentar elucidar a contraposição moleque x homem. Ou traduzindo para bom português, criança x homem. Uma criança doente chora, busca o colo do pai, fica indefesa e prostrada, aguardando que lhe tratem. Um homem doente talvez contenha o choro, talvez já não tenha o pai a lhe dar o colo, mas ficará igualmente indefeso e prostrado aguardando o tratamento.
Entretanto, qualquer que seja a postura do infectado, homem ou criança, o comportamento não altera o desenvolvimento da doença. O que pode fazer diferença é a reação do organismo – o vigor da juventude contra a debilidade do corpo velho, a falta de imunidades do corpo jovem contra os anticorpos acumulados do homem adulto.
Qualquer que seja o caso, o comportamento do doente não modifica necessariamente o resultado. Acometido pela doença, homens, crianças, jagunços ou mulheres devem suportar sua miséria e sofrimento, aguardando o desenrolar de seu tratamento. Talvez seja por isso que a medicina use a palavra “paciente” e não “herói”.
Wolney Unes é professor da UFG