Há um mês completei 23 anos. Ninguém nunca me contou que essa idade guardava qualquer magia, como dizem guardar os 15, os 18 ou os 21. Na verdade, eu me lembro de ter sentido a vida mudar aos dez, aos 16, aos 19 e, agora, aos 23. Se eu tivesse um diário (mas fica aqui nessa coluna um texto mais íntimo) eu escreveria que 23 anos foi a idade que me deu a completa noção de que eu já tenho um passado, apesar de muito futuro pela frente. Senti que, hoje, estou entre saudades e expectativas. Mas preocupada, acima de tudo, com o presente.
Eu me olhei no espelho e vi que, apesar da mesma cara de criança (que ainda me faz exigirem que eu apresente RG por aí), me aparecem as primeiras marcas quando eu rio, ali no cantinho dos olhos. E quando percebi isso, ri de novo. Tenho um apreço estranho por rugas, cicatrizes e afins. Marcas de que a gente viveu. E aí vi que esse aniversário foi diferente. Eu estava bem menos preocupada com festa, com quem viria, quem ligaria. Fiquei pensando, apenas, que a vida mudou e que o futuro chega mesmo, sutil, rápido e doce, se assim a gente permitir.
Percebi que meus irmãos não moram mais comigo. E que nunca mais seremos uma família morando debaixo do mesmo teto. Almoçar os cinco, aquela rotina de tantos anos: coisa rara. Por outro lado, não há alegria mais profunda que reencontrar irmãos que moram em outra cidade. É um abraço que guarda a mesma sensação de tirar os calçados quando se chega em casa. Não importa se o encontro dura um dia, dois ou três. O que vale é a sensação de pisar descalço em casa. E quando se vê, são mais quilômetros, cenários, emoções (já conhecidas, outras não), experiências proporcionadas pelo fato de se ter seu irmão longe de casa.
Nunca fui aborrecente. Sempre achei o máximo minha mãe cantando nas festinhas da escola e fazendo passinhos nas festinhas quando tocava músicas dos anos 70. Meu pai sempre me encantou com seu discurso sempre sábio guardado para cada amigo. Mas, até então, meus momentos de lazer eram dedicados, em grande parte, aos amigos e namorados. Quando me vi beirando os 23, no entanto, parece que a admiração e amizade pelos meus pais acabaram aumentando.
Quando me dei conta, minhas melhores noites de sextas-feiras são com os dois, tomando cervejinha, falando sério ou rindo muito. Os amigos cada vez mais se unem a esse programa. E aí que não saio mais de casa antes da meia noite numa sexta. E percebi que chegar em casa do trabalho e ter minha mãe para mexer no meu cabelo e meu pai para compartilhar das minhas dúvidas, indignações e impressões me fazem pensar seriamente se quero morar sozinha tão logo. Porque penso que tudo passa rápido demais. Quando vi, meu pai já tem mais cabelos brancos que pretos. E minha mãe se aposentou.
Quando parei para contar nos dedos, tenho um grande amigo em cada canto do Brasil e são poucos os que ainda ficaram por perto, ali naquela coisa que a gente chama de rotina. Por outro lado, entendi que eles não precisam estar nela. Que não preciso falar com eles toda semana por telefone ou pela internet para saber que estão bem. Eles me procuram quando não estão, assim como eu o faço. Assim como quando a gente precisa conversar ou contar uma coisa que só eles entendem. Porque precisa de contexto. E isso se constrói com muito tempo, cumplicidade e experiências.
Que os encontros e reencontros sempre acontecem. Aqui ou em outro canto do mundo. E são mais especiais como antes, porque a gente parece reencontrar com a gente mesmo: com nossas histórias, nosso passado, nossos sentimentos. Porque a gente sabe que aquilo é de vez em quando, e por isso, aproveitamos até que se encaminhem para o Santa Genoveva. E também porque, ainda bem, a cada encontro vejo que cada amigo está melhor. A maturidade tem lá seu sabor especial.
Aliás, essa graciosa idade nos faz ser chatos. Ou seletos. Ou, na verdade, a gente vê que nosso tempo é curto demais para se gastar com quem não vale tanto à pena. Talvez até seja legal, mas ao longo de 23 anos são tantas pessoas especiais para dividir tempo, milhas e intimidades que a gente tem que saber para quem ligar e chamar para tomar uma cerveja. Aliás, já pensei algumas vezes que não quero mais fazer nenhuma amizade. Porque são tantas pessoas queridas para rever, que não dá para conhecer outras mais e conseguir reencontrar com todas. Vou estar sempre ausente com alguém.
Percebi que não piso há tempos no bar da faculdade quando o sol ainda está a pino. Aliás, não tenho mais vida universitária. Nem saúde para tomar porre durante a semana e acordar firme no dia seguinte para assistir às aulas sem nem cochilar. Isso é muito estranho. Ao fim desse segundo curso, caminhando pelos corredores, olho uma menininha de chinelo e short que faz me lembrar de mim há cinco anos. Quando olho para mim, visto camisa e sapato fechado. Depois de nos cruzarmos no corredor, eu vou trabalhar. Ela deve ir tomar umas com a turma na Pamonharia. Ali pelos mesmos corredores, encontro ex-alunos dos meus tempos de teacher. Na época, eles cursavam a sétima série. O tempo passou.
O que bate é uma saudade dessas que não amargam. Tenho doces lembranças e boas histórias de cada ano. Pode parecer mentira, mas desde criança eu carrego a necessidade de curtir cada fase da minha vida, de acordo com o que ela proporciona. Eu me lembro de quando, aos dez anos, eu não sentia mais vontade nenhuma de brincar de boneca. Um pouco precipitada por conta da minha parceira ser minha irmã, que completava 13 anos e já se arrumava para ir para festas. Eu tentava me forçar a gostar, a não rejeitar minhas bonecas e fingir ficar feliz quando minha mãe me dava uma de presente. Porque eu pensava “ai, ai, já já não sou mais criança e vou me arrepender”.
Não me arrependi. Acho que essa vozinha que me dizia para aproveitar cada momento e cada oportunidade que a vida dava me fez bem. Sinto que esgotei cada fase da minha vida (poucas, ainda) e permiti que as mudanças fossem sempre bem vindas, sem sofrimentos. Hoje vejo que sorte existe. Mas mais ainda conseqüência do que você faz por si e pelos outros. Olho para trás e penso que só não quero decepcionar uma pessoa: eu mesma. Penso quem eu queria ser há 15, dez ou cinco anos. Se soube encontrar a medida certa entre deixar a vida me levar e ter as rédeas da vida. Soprei minha vela satisfeita, ao fim das contas, nesse ano.
Pensei que, aos 23 anos, aquelas decisões que você teve que tomar rápido e outras, nem tanto, começam a ser mais definitivas que antes. Alguns caminhos que você poderia ter escolhido, pessoas que você poderia ter se tornado, namorados que poderiam ter se tornado maridos acabam ficando para trás. Mas, ao contrário do que a Nadinha de 15 anos atrás achava, é permitido, aliás, muito bem vindo viver incertezas aos 23. Achava que a vida se resolveria por essa idade e que daí para frente seria só tocar o mesmo rumo até ficar velho. Não penso mais assim.
Vejo, antes, um sintoma geral da turma que está na casa dos 20. Quando começam a pensar que a gente está ficando adulto e vamos sossegar o facho, a vida está só começando. Cada vez menos de medo errar, tentar de novo, recomeçar, refazer. Cada vez mais vontade de conhecer, relacionar, viver, mudar. Uma vontade de não deixar nenhum dia passar em branco. De não viver uma vida medíocre.
Na última semana, vendo a exposição “World Press Photo” na Caixa Cultural do Rio, me impressionei com essa foto de Denis Rouvre. Uma senhora que sobreviveu à Tsunami de 2011 no Japão. Eram tantas rugas que pareciam guardar tanta vida, sentimentos. Observando, pensei que tudo que mais quero são muitas rugas. Por trás de cada, uma história. Porque o que me fez acordar feliz no dia 11 de maio, foi pensar no que vivi até agora. E em tudo o que a vida ainda guarda para mim. Por fim, confesso, quando soprei essa vela dos 23 eu só desejei uma coisa: quero histórias de minha própria vida para contar. É o que vou levar do que vivi.