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CPI dos grampos

09.06.2020 - 11:08:24
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O afastamento do Secretário de Segurança Pública de Goiás nos obriga a reflexões e providências sobre uma nuvem de fumaças envolvendo a Segurança Pública em Goiás. Rodney Miranda foi apresentado como investigador sério e implacável, convocado para vir a Goiás combater o que o governador chamava de Disneylândia da corrupção, uma suposta coleção de crimes atribuídos a governantes passados. 
 
Baseado no quadro suposto pelo chefe, Rodney convenceu a força-tarefa do então ministro Sérgio Moro a enviar para Goiás um grupo de investigadores experientes da Força Nacional para o que seria uma “grande operação de desmonte da corrupção instalada em Goiás”. Juntos, Governo Estadual e Federal trabalharam meses em busca de casos, culpados ou, minimamente, algum suspeito de prática criminosa. 
 
Nada foi encontrado. Nada pôde ser demonstrado, até que, depois de 6 meses de tentativa, a força-tarefa recolheu a equipe e deixou o secretário goiano procurando sozinho. Pressionado por Caiado a entregar algum resultado, Rodney Miranda teria usado práticas ilegais, chegando ao limite do abuso de poder contra pessoas e empresas, e grampos telefônicos ilegais dentro do próprio grupo de poder. 
 
As informações vieram de uma fonte íntima do centro do poder, personificada pelo primo do governador – Jorge Caiado, com acusações claras e contundentes de grampo telefônico ilegal e até desvio de recursos públicos por parte do secretário de Segurança Pública, encarregado de proteger o estado e o cidadão. As denúncias coincidem com declarações recentes do governador de Goiás, segundo as quais o secretário goza de total confiança do Estado e sua atuação tem amplo apoio do governador. 
 
As mesmas fontes começaram a espalhar que Rodney teria descoberto atos ilícitos e com indícios de corrupção praticados já a no atual governo. Foi quando se iniciou a fritura interna do secretário, com uma mensagem do primo Jorge Caiado que, convenientemente vazada, levantou os grupos fiéis ao governador a um movimento para afastar o secretário.
 
O anúncio da demissão foi confirmado pela assessoria do palácio e em reunião de cúpula Rodney Miranda chegou a se despedir dos colegas. A razão era a acusação, pelo núcleo de poder, de ser um “araponga corrupto”, com grampos telefônicos sobre autoridades públicas e desvio de dinheiro do Corpo de Bombeiros. 
 
Como são acusações sérias e pesadas, certamente não podem ficar no vazio. Um policial de carreira, conhecedor das vísceras internas do Governo, quando acusado de crime tão graves, deve explicações públicas. Também é certo que a força e independência da Polícia Civil de Goiás precisam ser preservadas com o esclarecimento destas acusações e apuração profunda das circunstâncias em que se deram. 
 
Dentro da própria Polícia, o grupo de “delegados do poder”, sob o comando de Rodney Miranda, já começaram a sofrer críticas de um movimento natural de preservação da credibilidade. Delegados mais experientes atestam que aventuras jurídicas, com operações sem conteúdo, desmoralizam a classe e afetam a corporação. Há um movimento silencioso, mas consistente, contra o uso político da polícia.   
 
Avisado dos riscos, a “montanha foi a Maomé”. Mal amanheceu a segunda-feira e o governador saiu do palácio e foi ao gabinete do secretário pedir que fique. Ao invés de sair atirando, Rodney combinou umas “férias”, com direito a se manter no comando e enfrentar o primo Jorge Caiado para provar quem é que está mentindo.  
 
A Assembleia Legislativa do Estado de Goiás e cada um de seus parlamentares, temos a obrigação cristalina de dar transparência e investigar a fundo esta história que envolve o comando das forças de Segurança do Estado de Goiás. Esta história do “fico” do secretário e a autorização para que ele enfrente o primo do governador mantém a nuvem de fumaça criada pela denúncia. 
 
Nós, que aqui vivemos e sempre trabalhamos por um estado melhor, precisamos juntar as peças desse quebra-cabeças. É uma obrigação desta Casa de Leis. É dever de seus parlamentares. É sobretudo um direito dos cidadãos de Goiás. 
 
*Talles Barreto é deputado estadual pelo PSDB
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por Talles Barreto

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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