Preciso falar uma coisa: o jogo de ontem entre Santos e Flamengo até agora não saiu da minha cabeça. Toda vez que paro, as cenas da partida voltam à memória. E a internet não me ajuda a esquecer: abro qualquer página e o jogo é destaque. E tem que ser destaque mesmo. Uma partida como aquela é fato histórico. Quando eu assistia, na hora do quarto gol do Flamengo, naquela falta genialmente cobrada por Ronaldinho Gaúcho, tive a certeza de que esse seria um daqueles jogos que serão lembrados por gerações. Eu realmente estava presenciando um épico. Um Santos e Flamengo digno de dois campeões mundiais. Como se o Peixe dos anos 60 enfrentasse o Urubu do início dos anos 80.
Eu torço para o o Goiás. E tenho simpatia pelo Flamengo. Então, só assisto por prazer jogos dessas duas equipes. Ontem trabalhei na transmissão esportiva da Rádio Interativa do jogo entre Atlético-GO e Cruzeiro. A jornada terminou às 22 horas e, quando estava deixando a cabine da emissora no Serra Dourada, o Santos já tinha marcado o primeiro gol com Borges. Foi um balde de água fria na minha vontade de assistir o jogo. Depois de sair do estádio, fui para o Bolshoi Pub onde apresentei os shows de Perrosky e Autoramas. Quando entrei na casa noturna, peguei meu celular para checar o placar do jogo. Me surpreendi quando vi que o alvinegro praiano já tinha marcado três gols. Naquele momento, tinha acabado de vez meu interesse pela partida. Fui conversar com os amigos Rodrigo e Eline. Só voltei a me interessar pelo jogo quando outro amigo, o Zeca, entrou esbaforido no Bolshoi:
– Velho, você não está vendo o jogo não?!? Está 3 a 3. Elano perdeu pênalti, Ronaldinho tá jogando muito, tá um clássico! Acabou agora o primeiro tempo!
Desesperei. Nas televisões da casa passava um DVD sensacional de David Bowie. Mas o músico britânico não era mais prioridade. Fui até o Rodrigo, proprietário do Bolshoi, e disse:
– Você tem que colocar essas TVs no futebol! Está passando o jogo do ano!
Meu olhar aflito deve ter convencido. Assisti todo o segundo tempo como se estivesse no estádio. Uma partida franca, que resgata o que realmente é o futebol e por que a gente gosta tanto desse esporte. Um jogo com dramas humanos onde a juventude de Neymar e Ganso se confrontava com a experiência de Ronaldinho e Thiago Neves. O jovem atacante santista fez um golaço logo no início do segundo tempo. Ronaldinho bateu uma falta histórica – a bola foi para a rede com tamanha delicadeza que nem parecia uma cobrança de falta e sim um passe. O mesmo Ronaldinho marcou o quinto gol onde a consolidação da supremacia rubro-negra no jogo (e pensar que ele foi vaiado há poucos dias pela cornetagem rubro-negra…). Um 5×4 para registrar nos livros.
Terminou a partida e eu já sabia do valor histórico da peleja. Mas só fui ter a dimensão real do drama quando cheguei em casa e fui ver os melhores momentos na internet. Não foram só os gols que deram status épico à partida. O drama vivido por Deivid e Elano são para ser analisados mais de perto. O centroavante flamenguista perdeu um gol debaixo do travessão de forma inexplicável. Chutou errado com a esquerda e com a direita. Isso quando o Flamengo estava atrás no placar. Esse gol poderia dar novo ânimo à partida, injetando vigor no time carioca. Mas ele perdeu de forma bisonha. Contudo, de cabeça, fez o terceiro gol que deixou o placar igual com três tentos para cada lado. A redenção. E o drama vivido por Elano. Após aquela bizarra cobrança da penalidade máxima na Copa América contra o Paraguai, onde ele jogou a bola no Uruguai, ele vai para a cobrança onde poderia ampliar a vitória santista. E mudou o jeito de bater. E foi de cavadinha. E o goleiro Felipe tranquilamente segurou a bola. Não só segurou, como saiu da meta fazendo balãozinhos. Tripudiou quem queria tripudiar. A derrocada.
Não consigo arranjar qualificação melhor que épica para essa partida.
Se você não viu o jogo ontem, assista a reprise que vai passar nos canais esportivos das TVs pagas. Baixe a partida na internet que já deve estar disponível aí na rede. Esse não é um jogo comum, dos quais quando você sabe o resultado perde a graça. É uma obra de arte. Você precisa ver e rever. É de uma paixão indescritível. Os altos e baixos que seduzem e convencem. O Santos e Flamengo de ontem é como Cidadão Kane: você já viu várias vezes, mas sempre é bom rever para entender o ser humano. O jogo de ontem definitivamente tem o seu Rosebud.