Goiânia – Dentro da perplexidade da peste chinesa, o mundo se reinventa para a sobrevivência das nações. O planeta girará mais cadenciado à busca de sua recuperação econômica e social. O turismo pós velório do falecido 2020 terá que se apegar a realidades mais segura, especialmente sanitárias, na busca da vida e a sobrevivência de 2021 adiante, esperamos.
Até 2019 emitíamos 600% a mais de pessoas para o exterior, que o que recebíamos de visitantes estrangeiros. A pandemia vai obrigar um melhor equilíbrio nessa balança comercial.
O turismo é a maior indústria mundial na absorção da mão de obra, mais até que a construção civil e a mais barata em investimentos, com espontâneo retorno econômico. Salvou nações da pobreza por saberem administrar seu receptivo turístico, como Portugal, exemplo mais próximo de nós.
Se por um lado a epidemia foi uma desgraça, por outro pode ter sido até benéfica. Não pelos estragos humanos irreparáveis, mas pela mudança de conduta de seus governos e cidadãos. Nasceu uma nova visão de vivência e valorização humana.
Para se recuperar o planeta será indispensável a criatividade, dentro de uma emergente civilização dominada pela cibernética, onde os robôs estarão substituindo a atividade comum dos homens e a viagens via mídia eletrônica. Para o turismo presencial exigirá maiores e convincentes informações e menos fantasia nas promoções de cada país ou região.
No Brasil
O brasileiro sempre desconsiderou como turísticas as viagens aos locais vizinhos, a não ser visitar amigos e parentes, sem desfrutar das belezas e tradições que cada comunidade guarda em si. Chegou a vez de se reforçar o lastro doméstico. As viagens de curta distância fortalecerão a atividade em benéfico auxílio à nossa recuperação econômica. Hoje emitimos 600% a mais de pessoas para o exterior que a contrapartida internacional.
Para fortalecer esse quadro é necessário que se cuide de nossas cidades, logradouros e bens naturais, pois o visitante gosta de ser bem recebido. Afinal está pagando para isso e não as quer ver sujas, esburacadas e monumentos descuidados, como taperas, restaurantes e hotéis mal higienizados e profissionais básicos pouco treinados.
É burrice ficar construindo fontes luminosas e outros monumentos de fachada, pois elas apenas contrastam com a realidade urbana local. Ninguém espera encontrar coisas novas em uma cidade velha, mas observar o que ali se preservou pelo tempo e a cristalizou na linha da história.
Vide o bom exemplo de Gramado, cidade de 37 mil habitantes cujas atrações são as suas peculiaridades domésticas. Isso se tratando de um dos mais bonitos, rico em histórias, diversidade cultural admirável, a melhor gastronomia, quer internacional como regional, e uma natureza exuberante, de inigualáveis belezas, como é o Brasil.
É fácil cuidar de um destino turístico. Basta planejamento e vontade política, especialmente dos Governos Estaduais e das Prefeituras. Uma cidade bem cuidada, para nós, será exemplo para se vender sua imagem ao exterior, captando conscientes visitantes estrangeiros sobre aquilo que lhe é ofertado, sem decepções. Turismo eficiente se faz pela boa recomendação, de quem o fez, para seus amigos e parentes.
Dentro do jargão turístico receptividade não tem nada a ver com receptivo. A primeira é a qualidade do calor humano em bem receber. A segunda é a matemática do número dos turistas recebidos.
Discriminação aos sul-americanos
Na cabeça dos brasileiros de classe média viagens internacionais só para a Europa e Estados Unidos. Discrimina os países hermanos da América do Sul. Agora tudo mudou. São nossos destinos mais próximos.
É bom lembrar que dos 6,5 milhões de turistas que recebíamos até 2019 nada menos que três milhões eram argentinos e 500 mil das demais 11 nações cucarachas que nos rodeiam.
Hoje os recebemos de maneira desordenada, sem nenhuma campanha de marketing a informar a esses amigos fronteiriços que o Brasil não é apenas o Sul, onde se amontoam, mas tem mais de 8,5 mil km de praias atlânticas. E que o Rio Grande do Sul é ligado por terra ao Rio Grande do Norte, pela rodovia BR 101, proporcionando uma viagem terrestre com as mais lindas paisagens. Os restantes três milhões vêm do resto do mundo. Aliás o Brasil, na América do Sul, está em 5º lugar no ranking receptivo internacional.
Para retomar o patamar de visitantes dos anos passados (sempre estagnados), há que se focar com mais pragmaticidade, profissionalismo e informações eficazes na América do Sul. Sem se esquecer e Estados Unidos, preferido dos brasileiros, mas que, dos 60 milhões de viajantes que mandam ao mundo, apenas 500 mil aportam no Brasil. Embora vizinho oceânico, nos manda três vezes menos que a Argentina.
Novos tempos, novas metodologias, novo foco para as novas práticas de lazer humano depois da peste que hoje nos assombra.
José Osório Naves é jornalista e consultor sênior em Turismo.