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Eurípedes Naves e a construção de Cachoeira Dourada

09.08.2020 - 16:38:03
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Curioso, desde rapazinho gostando de mexer em sistemas elétricos, inclusive de carros, Eurípedes Naves Borges estava desempregado em sua cidade natal, Corumbaíba, GO, quando um conterrâneo, que trabalhava na Centrais Elétricas de Goiás (Celg), prometeu arranjar uma ocupação para ele na empresa. Com 25 anos de idade, estudara apenas o básico, mas tinha muita prática e facilidade em aprender na área de eletricidade, dava opiniões pertinentes e precisava trabalhar. Além disso, estava casado, tinha uma filha de cinco anos, e sua cidade oferecia poucas oportunidades.
 
Era 1965.
 
A promessa do amigo o deixou entusiasmado. Logo tratou de arrumar as roupas na mala, em uma semana estava em Goiânia, para cobrar a promessa, e ao chegar à empresa surgiu uma primeira chateação: o amigo tinha sido demitido, e ele não conhecia ali mais ninguém que pudesse facilitar para ele conseguir uma chance.
 
Sem nenhuma perspectiva, decidiu visitar a Oficina Mecânica da Celg, para conhecer como funcionava e bisbilhotar nas máquinas existentes. Gostou da estrutura, logo fez amizades e deixaram ele ajudar os mecânicos em suas tarefas. A curiosidade que demonstrava e o interesse em trabalhar logo despertaram a atenção do chefe da Oficina, que lhe arranjou a vaga, e ali ficou poucos meses, logo passando para a Oficina Elétrica, pela sua maior desenvoltura com essas máquinas.
 
A oficina da Celg ainda não dispunha de muitos técnicos especializados, o trabalho estava se avolumando e as possibilidades para ele cresciam. Já era conhecido de muitos e sua dedicação continuou a chamar a atenção de todos.
 
Um ano depois, o então presidente da Celg, engenheiro Joaquim Guedes de Amorim Coelho, que muitos tratavam como Guedinho, que sempre visitava as oficinas, encontrou Eurípedes num canto, acabrunhado, chorando, e, como já o conhecia, por seu interesse e entusiasmo com a área elétrica, foi indagar o motivo daquela tristeza.
 
Meio acanhado, disse que queria estudar, ampliar seus conhecimentos, para melhor desempenhar suas tarefas, e se esbarrara nas normas legais do ensino, que exigiam o cumprimento de uma sequência nos estudos: primário, ginasial e técnico ou científico.
 
Morara a maior parte do tempo no meio rural, na roça, onde fez apenas o curso primário, na escola montada pelo seu pai, Raul Naves de Oliveira, conhecido como Raul Cocota, para atender seus filhos e os filhos dos vizinhos.
 
Como estava trabalhando na Celg e gostava do que fazia, ficou sabendo do processo seletivo, muito disputado, para ingresso na Escola Técnica Federal de Goiás (ETFG), no Curso de Eletrotécnica. Fez a inscrição, as provas e, divulgado o resultado, a surpresa agradável: conquistou o segundo lugar nessa espécie de vestibular.
 
Um problema surgiu em seguida: quando providenciou a documentação para a matrícula, exigiram que apresentasse a prova de conclusão do Curso Ginasial, que ele disse não ter, pois estudara apenas na fazenda onde morava.
 
Reconhecendo a curiosidade e a dedicação do empregado em suas atividades, Guedinho logo o tranquilizou, dizendo para não se preocupar, que iria encontrar uma solução para o impasse e até brincou:
 
“Vamos fazer o que for possível. Se necessário, tiramos o diretor”, disse, sorrindo.
 
Qual não foi sua surpresa quando, dois dias depois, foi chamado na ETFG para confirmar a matrícula e realizar o tão sonhado curso técnico.
 
Alguns meses depois, já estudando e com mais conhecimento da área, teve sua primeira oportunidade na empresa, e a aproveitou bem, para agradecer a acolhida e o apoio quando quis voltar à escola.
 
Um grande transformador, que pesava em torno de 30 mil kg, deu problema. Ligaram em São Paulo, onde fora fabricado, e a empresa não dispunha de técnico para buscar o equipamento e nem enviá-lo a Goiânia para o conserto. João Rabelo, chefe da Oficina Elétrica, estava desesperado, não sabia a quem recorrer, quando Eurípedes se prontificou em mexer – ‘enrolar’, no linguajar técnico – no transformador.
 
Máquina cara, o chefe não o autorizou, mas teve a iniciativa de falar com o Presidente da Celg sobre o assunto e dar a sugestão do técnico. Como o dirigente da empresa já o conhecia pelo trabalho que realizava e pela demonstração de interesse, autorizou, explicando que, se não desse certo, o prejuízo seria pequeno.
 
Todos concordaram.
 
Eurípedes, então, começou o trabalho, com muita paciência e cuidado, esperançoso de que conseguira bom resultado, e deu.
 
Ao final da jornada foram testá-lo e, para decepção, houve um estouro.
 
Como todos, ele ficou desesperado, passando as mãos no cabelo para indagar a si mesmo o que tivera feito de errado. Logo se aproximou, quando descobriu que tinham afastado o transformador e o encostado na parede, gerando o curto-circuito total. Foi lá, puxou-o, viu o problema, deu uma nova mexida e falou para ligarem, pois estava nervoso com o estrondo e pediu que outro o fizesse. Feita a ligação deu tudo certo.
 
Dez anos depois esteve na Celg e, para sua surpresa, o transformador continuava funcionando, e bem.
 
Desconfiado como todos diante das promessas de políticos, nem sempre realizadas, Eurípedes estava presente quando da primeira visita que o então governador Otávio Lage fez ao canteiro de obras da segunda etapa de Cachoeira Dourada, na divisa de Goiás com Minas Goiás. Não o conhecia e o acompanhou em suas andanças pelo local, conversando com engenheiros e técnicos e ficou surpreso quando ele anunciou que a obra seria concluída ainda em sua administração.  
 
Na verdade, ficou indignado, pois trabalhava na empresa, sabia de sua capacidade de execução, mas não acreditava que seria possível realizar uma obra daquela dimensão naquele prazo, que considerada curto. Conhecia a primeira etapa, um simples rego d’água no rio Paranaíba, que produzia 18.500 HP de energia, e a potência que ele falou passaria para mais de 150 mil KW. Era difícil de acreditar, em especial para quem era da área. Crítico dos políticos, chegou a comentar com os mais próximos sobre a promessa, que para ela dificilmente seria concluída no período anunciado.
 
Técnico da empresa, em algumas oportunidades esteve em Cachoeira Dourada e foi se surpreendendo com o que via, com o entusiasmo em relação ao andamento dos trabalhos. Viu, de repente, o rego d’água ser desviado para o lado de Minas Gerais e o começo da grande barragem, as grandes máquinas, e o avanço dos serviços.
 
Tão logo a obra ganhou vulto e a certeza de sua conclusão nos dois anos previstos, numa de suas últimas visitas ao local, quando novamente se encontrou com Otávio Lage, ele fez questão de cumprimentá-lo e dizer de suas dúvidas quando àquela promessa. Humilde, pediu desculpas por ter duvidado da capacidade de conclusão da usina, daquele tamanho, em prazo que considerava muito reduzido. 
 
Em outra ocasião, quando Otávio iria a Goianésia participar de uma reunião social, no dia anterior solicitou à Celg a revisão do gerador que atendia o local, que estava com defeito, e viajou para a sua cidade.
 
Eurípedes foi escalado para essa tarefa. Arrumou sua maleta, fez uma viagem tranquila, chegou e foi direto ver o equipamento. Lá, deu uma olhada no gerador, constatou o problema e se organizou para o conserto, a substituição do cobre queimado por material novo.
 
Diante do peso da máquina e do trabalho que faria, pois estava só, pediu ao Governador para arranjar alguém para ajudá-lo, com receio de não ser possível concluir aquela missão a tempo.
 
Simples e despachado, Otávio se ofereceu para a tarefa, deixando-o meio desconcertado, sem saber o que falar.
 
            “Eu não sirvo?”, indagou, sério.
 
            “É um trabalho pesado e a pessoa vai sujar muito”, respondeu o técnico.
 
            “Não tem problema”, disse Otávio, acostumado ele mesmo a realizar essas tarefas complicadas e pesadas, e foi arregaçando as mangas da camisa.
 
Já amanhecia quando os dois concluíram o trabalho, exaustos e todo sujo de graxa, garantindo a realização do evento, sem maiores contratempos.
 
*Jales Naves é jornalista e escritor, presidiu a Associação Goiana de Imprensa (AGI) em dois mandatos consecutivos (1985-1991).
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por Jales Naves

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