Logo

Hábito de ler está além dos livros, diz especialistas em leitura

25.06.2012 - 09:30:22
WhatsAppFacebookLinkedInX

Brasília – Um dos maiores especialistas em leitura do mundo, o francês Roger Chartier destaca que o hábito de ler está muito além dos livros impressos e defende que os governos têm papel importante na promoção de uma sociedade mais leitora.
O historiador esteve no Brasil para participar do 2º Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários, realizado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Em entrevista à Agência Brasil, o professor e historiador avaliou que os meios digitais ampliam as possibilidades de leitura, mas ressaltou que parte da sociedade ainda está excluída dessa realidade. “O analfabetismo pode ser o radical, o funcional ou o digital”, disse.

Agência Brasil: Uma pesquisa divulgada recentemente indicou que o brasileiro lê em média quatro livros por ano (a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada pelo Instituto Pró-Livro em abril). Podemos considerar essa quantidade grande ou pequena em relação a outros países?
Roger Chartier: Em primeiro lugar, me parece que o ato de ler não se trata necessariamente de ler livros. Essas pesquisas que peguntam às pessoas se elas leem livros estão sempre ignorando que a leitura é muito mais do que ler livros. Basta ver em todos os comportamentos da sociedade que a leitura é uma prática fundamental e disseminada. Isso inclui a leitura dos livros, mas muita gente diz que não lê livros e de fato está lendo objetos impressos que poderiam ser considerados [jornais, revistas, revistas em quadrinhos, entre outras publicações]. Não devemos ser pessimistas, o que se deve pensar é que a prática da leitura é mais frequente, importante e necessária do que poderia indicar uma pesquisa sobre o número de livros lidos.

Agência Brasil: Hoje a leitura está em diferentes plataformas?
Chartier: Absolutamente, quando há a entrada no mundo digital abre-se uma possibilidade de leitura mais importante que antes. Não posso comparar imediatamente, mas nos últimos anos houve um recuo do número de livros lidos, mas não necessariamente porque as pessoas estão lendo pouco. É mais uma transformação das práticas culturais. É gente que tinha o costume de comprar e ler muitos livros e agora talvez gaste o mesmo dinheiro com outras formas de diversão.

Agência Brasil: A mesma pesquisa que trouxe a média de livro lidos pelos brasileiros aponta que a população prefere outras atividade à leitura, como ver televisão ou acessar a internet.
Chartier: Isso não seria próprio do brasileiro. Penso que em qualquer sociedade do mundo [a pesquisa] teria o mesmo resultado. Talvez com porcentagens diferentes. Uma pesquisa francesa do Ministério da Cultura mostrou que houve uma redistribuição dos gastos culturais para o teatro, o turismo, a viagem e o próprio meio digital.

Agência Brasil: Na sua avaliação, essa evolução tecnológica da leitura do impresso para os meios digitais tem o papel de ampliar ou reduzir o número de leitores?
Chartier: Representa uma possibilidade de leitura mais forte do que antes. Quantas vezes nós somos obrigados a preencher formulários para comprar algo, ler e-mails. Tudo isso está num mundo digital que é construído pela leitura e a escrita. Mas também há fronteiras, não se pode pensar que cada um tem um acesso imediato [ao meio digital]. É totalmente um mundo que impõe mais leitura e escrita. Por outro lado, é um mundo onde a leitura tradicional dos textos que são considerados livros, de ver uma obra que tem uma coerência, uma singularidade, aqui [nos meios digitais] se confronta com uma prática de leitura que é mais descontínua. A percepção da obra intelectual ou estética no mundo digital é um processo muito mais complicado porque há fragmentos e trechos de textos aparecendo na tela.

Agência Brasil: Na sua opinião, a responsabilidade de promover o hábito da leitura em uma sociedade é da escola?
Chartier: Os sociólogos mostram que, evidentemente, a escola pode corrigir desigualdades que nascem na sociedade mesmo [para o acesso à leitura]. Mas ao mesmo tempo a escola reflete as desigualdades de uma sociedade. Então me parece que, também, é um desafio fundamental que as crianças possam ter incorporados instrumentos de relação com a cultura escrita e que essa desigualdade social deveria ser considerada e corrigida pela escola que normalmente pode dar aos que estão desprovidos os instrumento de conhecimento ou de compreensão da cultura escrita. É uma relação complexa entre a escola e o mundo social. E é claro que a escola não pode fazer tudo.

Agência Brasil: Esse é um papel também dos governos?
Chartier: Os governos têm um papel múltiplo. Ele pode ajudar por meio de campanhas de incentivo à leitura, de recursos às famílias mais desprovidas de capital cultural e pode ajudar pela atenção ao sistema escolar. São três maneira de interação que me parecem fundamentais.

Agência Brasil: No Brasil ainda temos quase 14 milhões de analfabetos e boa parte da população tem pouco domínio da leitura e escrita – são as pessoas consideradas analfabetas funcionais. Isso não é um entrave ao estímulo da leitura?
Chartier: É preciso diferenciar o analfabetismo radical, que é quando a pessoa está realmente fora da possibilidade de ler e escrever da outra forma que seria uma dificuldade para uma leitura. Há ainda uma outra forma de analfabetismo que seria da historialidade no mundo digital, uma nova fronteira entre os que estão dentro desse mundo e outros que, por razões econômicas e culturais, ficam de fora. O conceito de analfabetismo pode ser o radical, o funcional ou o digital. Cada um precisa de uma forma de aculturação, de pedagogia e didática diferente, mas os três também são tarefas importantes não só para os governos, mas para a sociedade inteira.

Agência Brasil: Na sua avaliação, a exclusão dos meios digitais poderia ser considerada uma nova forma de analfabetismo?
Chartier: Me parece que isso é importante e há uma ilusão que vem de quem escreve sobre o mundo digital, porque já está nele e pensa que a sociedade inteira está digitalizada, mas não é o caso. Evidente há muitos obstáculos e fronteiras para entrar nesse mundo. Começando pela própria compra dos instrumentos e terminando com a capacidade de fazer um bom uso dessas novas técnicas. Essa é uma outra tarefa dada à escola de permitir a aprendizagem dessa nova técnica, mas não somente de aprender a ler e escrever, mas como fazer isso na tela do computador.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Yuri Lopes
Postagens Relacionadas
Música
28.02.2026
Thalita Pertuzatti chega a Goiânia com tributo à voz de Whitney Houston

A Redação Goiânia – O espetáculo Whitney Forever chega a Goiânia para duas apresentações nos dias 9 e 11 de março, às 20h, celebrando a trajetória e o legado de Whitney Houston. A sessão do dia 9 de março já está esgotada. Para o dia 11, os ingressos seguem disponíveis na plataforma on-line Uhuu. Em […]

Audiovisual
28.02.2026
Romance ‘Cinzas do Norte’, de Milton Hatoum, vai ganhar adaptação

São Paulo – A obra Cinzas do Norte, romance de Milton Hatoum, teve os direitos de adaptação para o audiovisual adquiridos pela Coiote, produtora responsável por sucessos como A Mulher da Casa Abandonada (Prime Video) e Maria e o Cangaço (Disney+). O projeto, que ainda está em sua fase inicial, contará com a direção de […]

Luto
28.02.2026
Morre Dennis Carvalho, diretor de ‘Vale Tudo’ e ‘Dancin Days’

São Paulo – Morreu neste sábado (28/2), aos 78 anos, o ator e diretor Dennis Carvalho, conhecido por sucessos da TV brasileira, como Vale Tudo e Dancin Days. A informação foi confirmada pelo Hospital Copa Star, em Copacabana, no Rio de Janeiro, ao Estadão. A causa da morte não foi divulgada. “O Hospital Copa Star […]

IMPRENSA GOIANA
28.02.2026
José Osório Naves doa primeiras edições da revista “Leia Agora” ao Instituto Histórico e Geográfico de Goiás

Jales Naves Especial para o jornal A Redação Goiânia – Um dos mais expressivos projetos editoriais executados em Goiás, na primeira metade dos anos 1970, a revista “Leia Agora”, dirigida pelo jornalista José Osório Naves, marcou um importante período na imprensa goiana, pelo estilo, conteúdo e dinâmica implantados, com circulação nacional. Bem elaborada, com textos que […]

MÚSICA
28.02.2026
Chrigor, Netinho de Paula e Márcio Art desembarcam em Goiânia com projeto Samba 90 Graus

Adriana Marinelli Goiânia – Goiânia vai embarcar em uma verdadeira viagem no tempo ao som de grandes sucessos do samba e do pagode dos anos 1990. O projeto Samba 90 Graus desembarca na capital no dia 11 de abril, reunindo no palco três vozes que marcaram gerações: Chrigor (Exaltasamba), Netinho de Paula (Negritude Jr.) e […]

MÚSICA
28.02.2026
Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás abre Temporada 2026 com concerto gratuito

A Redação Goiânia – Na próxima sexta-feira (6/3), às 20h, o Teatro Escola Basileu França, no Setor Universitário, em Goiânia, recebe a abertura oficial da Temporada 2026 da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás (OSJG). A apresentação é gratuita e marca o retorno do grupo aos palcos após breve recesso, reunindo obras consagradas do repertório sinfônico […]

Negócios
28.02.2026
Paramount celebra compra da Warner por US$ 110 bi e detalha os planos da fusão

São Paulo – A Paramount Skydance Corporation, em conjunto com a Warner Bros. Discovery, Inc. (WBD), anunciou nesta sexta-feira, 27, a assinatura de um acordo definitivo de fusão, pelo qual adquire a WBD para formar “uma empresa global líder em mídia e entretenimento”. O negócio foi concretizado após a desistência da Netflix. No comunicado, a […]

Música
27.02.2026
Gabriel O Pensador é atração do Claque Cultural neste sábado (28/2) em Goiânia

A Redação Goiânia – A Secretaria da Retomada e o Serviço Social do Comércio de Goiás (Sesc-GO) promoveram ao longo dos últimos dias uma maratona cultural no Centro de Excelência do Esporte, anexo ao Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, em Goiânia. Com entrada gratuita, o evento será encerrado neste sábado (28/2) com show de Gabriel […]