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A vida sem surpresas

25.06.2012 - 23:12:12
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Esses dias resolvi ignorar pen drive e CD e ouvir rádio quando voltava do trabalho. Acho que tenho uma alma velha e não abro mão de certos hábitos. Ouvir rádio é um deles, inclusive (até principalmente) Voz do Brasil. Eis que começa a tocar uma música do Chico que, logo que começou a introdução, minhas pernas ficaram bambas, minha barriga deu um friozinho e, de repente, vêm cheiros, sensações, lembranças de um tempo em que eu ouvia muito aquela música.
 
A música tem mesmo esse poder. Ainda mais quando não se ouve uma canção há tempos. Poder de te fazer lembrar de um momento de sua vida e até de detalhes que, se não fossem aqueles acordes soando em seu ouvido, dificilmente se lembraria. Mas o que ocorre é que, dificilmente nos proporcionamos essas surpresas. Eu tenho o domínio do álbum que vou ouvir, do que vou selecionar no Grooveshark ou no Youtube. Portanto, escolho até do que quero lembrar. E o rádio, por outro lado, te faz ouvir o que você não escolheu. Isso significa que as chances de uma boa surpresa são muito grandes.
 
A verdade é que o friozinho na barriga, as lembranças e as sensações que aquela canção do Chico me proporcionou me fizeram pensar que a vida é muito mais prazerosa com surpresas. E a vida que a gente vive tende a ser, cada vez mais, previsível. Queremos ter as rédeas de tudo e evitar que qualquer coisa nos aconteça fora de nosso domínio. Desde a música que vamos ouvir até uma doença que nos acomete, tudo deve estar sob nosso poder.

Lembrei-me da minha adolescência e infância. Havia emoção maior que o seu clip favorito (no meu caso, Californication do Red Hot) aparecer nos top 10? Ou passar na Sessão da Tarde um dos seus filmes favoritos (os Batutinhas era um deles, confesso)? Comprar ingresso às vésperas da estreia daquele filme que você espera há tempos (no caso, Harry Potter)? Bom, hoje a gente resolve todas essas ansiedades com downloads, sem sair de casa. 
 

Deslizando, ainda, nos acordes da canção de Chico, fiquei pensando nas gravidezes da minha mãe. À época, ultrassonografia não era coisa tão popularizada (olha eu ficando velha), utilizada em casos em que o pré-natal apontava para algum problema. Isso significa que minha mãe esperou os nove meses de cada um dos três filhos para saber o sexo. Roupinhas amarelas e brancas. Ou, pensando bem, rosa e azul mesmo, ela nos vestiria, independente do sexo, sem algum problema. Duas opções de nome até o nascimento. No meu caso, até 11 de maio de 1989, eu poderia me chamar João Ernane, carregando os nomes dos meus avôs.
 
E hoje, você veja bem, sexo é uma surpresa até o quarto mês. Quiçá, terceiro. E antes mesmo do bebê nascer você já pode ver sua fisionomia, uma foto quase perfeita ainda no útero. “É a cara da mãe”, logo se diz antes mesmo do primeiro berro daquele ser. E a gravidez mesmo, cada vez menos, uma surpresa. Planejamos tudo! E se a notícia de que vem aí um bebê é uma surpresa – infelizmente – na maioria das vezes, é desagradável, no primeiro momento. Provavelmente resultado de métodos contraceptivos ignorados. Planeja-se, até, se possível, o dia que o bebê vai nascer. “Deus me livre de um filho ariano”, já ouvi por aí.
 
O mesmo acontece quando vamos viajar. Maldito seja o Google Imagens! A verdade é que você re-conhece as coisas. Porque, no fundo, você já conhece aquilo. Pelas fotos, TV, revistas tudo aquilo já lhe é conhecido, de alguma forma. Por isso que acredito que, chegando lá, você deve procurar o que ninguém te contou. Aí sua viagem vai ser mais interessante. Sempre me lembro da fala do meu pai, dizendo que quer ir mesmo é para Kathmandu, Laos, Irã, por aí. Porque esses, ele não tem nem ideia de como seja. O resto, a gente já sabe como é. 
 
Aliás, se o Google Imagens é maldito, praga mesmo é o Google Maps, em que você vê até a fachada da casa de alguém! Uma vez alguém quis me mostrar Paris por esse programinha eu falei. “Para, para! Eu não conheço Paris ainda! Não quero que a primeira vez seja assim”. Lembro-me quando estava em Berlin e um amigo alemão queria saber o que era jabuticaba. Eu disse que tinha no quintal da minha casa. Não há de ver que ele conseguiu ver, pelo Google Maps, a tal árvore em minha residência? Nossa, perdeu a graça.
 
Por um lado, esse apreço todo por surpresas e contrário às tecnologias que fazem a vida tão previsível pode ser minha alma velha falando alto. Por outro, penso que essa nossa ânsia por domínio de tudo, em alguma medida, nos faz perder a noção das contingências da vida. De que a gente não tem domínio de tudo. E não pode ter. A morte, por exemplo, é o que está fora de nosso poder. E, talvez, por isso, tanto sofrimento e inconformismo quando ela chega perto. 
 
“Por que comigo, Deus?”, é a primeira pergunta diante de uma das desgraças que fazem parte da vida. Simplesmente porque ela não é feita apenas de castigos e premiações. O pai saudável com câncer, o irmão amado e que tudo teve usuário de drogas, o amigo feliz que suicidou. Você pode fazer tudo para algo dar certo mas, pode simplesmente, sair tudo às avessas. Édipo que deixa, em vão, seu reino para não assassinar seu pai e se casar com sua mãe, conforme oráculo. É o que as tragédias nos mostram: não temos total domínio da vida. 

E não adianta, muitas vezes, tentar encontrar o ponto onde errou, culpar deuses e aceitar um castigo. A vida não segue o pragmatismo e o planejamento de sua agenda. Faça o que acha o que deve ser feito, apenas, diante da impotência de mandar em tudo. Admitir essa falta de controle, em certa medida, pode provocar menos dores e mais boas surpresas.   

 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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