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As Relações Internacionais e a civilização

07.10.2020 - 21:09:18
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A exobiologia é um campo de estudos científicos que cuida da pesquisa de vida fora da Terra. Não que os cientistas estejam à procura dos ETs da ficção científica, mas, sim, de toda e qualquer forma de vida que tenha se desenvolvido fora do planeta Terra, por mais microscópica que seja. Recentemente, pesquisas encontraram uma substância química, a fosfina, no planeta Vênus. Houve um alvoroço na comunidade científica, pois a quantidade encontrada da substância é um forte indício de atividade biológica em escala microrgânica. Com a cautela própria da ciência, os pesquisadores aguardam novos estudos para concluir se realmente houve descoberta de vida fora da Terra.

No âmbito da arte em geral e em sua relação intersemiótica entre as diversas linguagens, como a literatura e o cinema, pode-se pensar claramente na definição de um gênero artístico e literário que já possui uma vasta massa crítica de objeto e conceito para ser definido, cuja etimologia (estudo de origem das palavras) guarda correspondência com a exobiologia. Assim, a exopoética seria o gênero de arte e literatura, ou lítero-artístico, relacionado a toda e qualquer produção artística dando conta da atividade humana fora do planeta Terra. Os exemplos nas artes são incontáveis.

Vejamos um. No ano de 2015, os cinemas exibiram o filme “Perdido em Marte”, dirigido pelo aclamado diretor, Ridley Scott, com roteiro escrito por Drew Goddard, baseado no romance “The Martian”, de Andy Wear. Não havia no roteiro vida alienígena, mas a missão de exploração científica de Marte. Ou seja, a exopoética se configura pelo desenrolar da atividade humana fora da Terra A narrativa se passa num futuro próximo. Durante uma tempestade no plano vermelho, a equipe precisa decolar urgentemente. Um dos astronautas sofre um acidente em meio à tormenta e é dado como morto pelos colegas que têm alguns segundos para a difícil escolha de deixá-lo em seu túmulo planetário.

Passada a tempestade, o espectador constata que o astronauta Mark Watney, interpretado pelo ator Matt Damon, está vivo, embora ferido. A partir de então, toda a narrativa se desdobra, com o protagonista tendo de lançar mão de seu conhecimento científico para sobreviver e entrar em contato com a Terra, o que acaba realizando após certo tempo. O grande desafio será a sobrevivência e o retorno para casa, uma vez que uma emergência dessa natureza não tinha sido prevista no protocolo de segurança.

“Perdido em Marte” se passa num futuro próximo que se poderia conceber como relativamente utópico. A humanidade para ter encontrado um ponto de equilíbrio e harmonia social em nível planetário. As grandes potências globais se juntam aos Estados Unidos da América, abrindo mão de segredos científicos importantes nas viagens espaciais para ajudar o astronauta em seu retorno para a Terra. A saga do protagonista é acompanhada ao vivo, numa expectativa global pelo sucesso que, quando alcançado, suscita uma vibração semelhante à de um gol decisivo em uma Copa do Mundo.

O planeta Terra parece viver no filme “Perdido em Marte” uma utopia social planetária, caracterizada por uma grande harmonia científica, tecnológica e social sem precedentes, encorpando o sonho de todo pacifista sincero e não somente ideológico, que anseia por um mundo em que seus correligionários tenham dominado a parte contrária, o que parece ser uma doença social de uma semicivilização.
 
Dentre as matérias que estudam os caminhos da humanidade para a realização do que a poética fílmica de “Perdido em Marte” antecipa em seu roteiro, destaca-se a disciplina de Relações Internacionais, que surgiu no início do século 20 nos Estados Unidos como área acadêmica que se volta para questões ligadas à relação entre as nações que compõem a civilização ou o que é entendido por esse termo de definição ampla. 

Civilização, sistema e sociedade internacional
No espaço dedicado aos assuntos internacionais pelos periódicos da mídia, sejam eles físicos ou digitais, os articulistas que ali escrevem têm o costume frequente de usar os termos “sistema internacional” ou “sociedade internacional” para se referir ao conjunto de países do mundo e suas interações. Contudo, por mais que pareça que ambos os termos sejam sinônimos, existe uma diferença de significado enorme entre eles, e que muitas vezes passa despercebida pelos jornalistas que escrevem as matérias sobre política internacional e, mais ainda, pelos leitores costumeiros ou casuais desses espaços.

Na área acadêmica de Teoria das Relações Internacionais existe uma grande quantidade de obras cujos autores se ocupam de explicar justamente as definições desses termos com os quais o profissional de Relações Internacionais sempre se depara em suas leituras e produções escritas. Por mais que essas definições estejam ligadas a correntes teóricas específicas de Relações Internacionais, elas são de uso geral na área.

Sistema Internacional, segundo a maioria dos teóricos desse campo de estudos, é a definição mais correta para o que temos agora no mundo: um sistema de relações políticas, econômicas e militares entre os países com a existência de limites territoriais, barreiras comerciais, conflitos por recursos e às vezes um intercâmbio sociocultural aqui e ali, mas nada que configure algo que possa ser chamado de “sociedade”, já que, mesmo com o fenômeno da globalização cada vez mais presente desde os anos 1970, ainda existem muitas diferenças e distância entre os povos do globo. Ou seja: o mundo está muito longe de ser uma confraternização universal pacífica, o que remete ao próximo conceito, o de “Sociedade Internacional”.

“Sociedade Internacional” é uma conceituação própria da corrente teórica liberal das Relações Internacionais, cujos princípios residem no alcance da paz através de uma cooperação cada vez maior entre os países. Para isto, as relações entre as nações precisariam atingir o estágio de uma sociedade tal como as sociedades democráticas internas de alguns países em que não só há maior integração econômica, militar e política, como também fortes ligações sociais e culturais entre os cidadãos.

Na Sociedade Internacional também existiriam regras às quais todos seguiriam nessa confraternização universal, tornando as fronteiras territoriais e as diferenças nacionais e étnicas entre os povos quase irrelevantes. Na versão mais radical do ideário da Sociedade Internacional existiria uma espécie de “governo mundial”, que regeria os Estados-Nações tal como acontece nas fronteiras internas de todo país com seus cidadãos. Só que, neste caso, os países estariam no papel de cidadãos respondendo a um poder maior que, idealmente, visaria a manter a paz e a harmonia na Sociedade Internacional.

Portanto, “Sistema Internacional” é o que temos hoje na primeira metade do século 21: nações relacionando-se de formas negativas e positivas, cada vez mais próximas e dependentes entre si economicamente, porém ainda muito independentes e distantes em quesitos sociais e culturais, o que às vezes causa conflitos por recursos, étnicos e religiosos, mas que também preserva vivo o sentimento de identificação nacional internamente entre os povos.

Já Sociedade Internacional é um modelo de mundo apenas teórico que nunca foi visto em prática. É uma criação da corrente Liberal das RIs que acredita no alcance da sonhada paz mundial através de uma cooperação entre nações, cada vez maior, que eventualmente as fronteiras geográficas dos países perderiam a alta relevância que têm hoje. Assim, na crueza dos fatos geopolíticos, o Sistema Internacional estaria mais para uma semicivilização, enquanto a Sociedade Internacional representaria a efetiva conquista da humanidade de uma civilização digna do que está implícito neste conceito.
 
*Gismair Martins Teixeira é Pós-Doutorando em Ciências da Religião; Doutor em Letras e Linguística pela UFG; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.
 
*Letícia Martins Lima é Graduanda em Relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG.
 
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por Gismair Teixeira E Letícia Lima

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