Logo

A matemática em meio ao caos pandêmico

20.10.2020 - 14:07:00
WhatsAppFacebookLinkedInX
Achatamento da curva de contaminação, incidência da taxa de contágio e a proporção de pacientes recuperados são expressões que se popularizaram em meio à pandemia do coronavírus (Covid-19). Para a elaboração e compreensão desses gráficos, além dos profissionais da saúde envolvidos, é necessária também a atuação de profissionais de uma área que não lida diretamente com pessoas, mas com números: a matemática.
 
A ciência relaciona as práticas do cotidiano e a natureza ao raciocínio humano e à lógica numérica. Com as modelagens, a matemática prestou, mais uma vez, serviços valiosos à saúde pública. Modelos matemáticos têm sido bastante utilizados para determinar a disseminação do vírus, bem como os números de infectados, de mortes e de hospitalizações. Assim, a estatística ajuda a simular o comportamento futuro da pandemia, levando em consideração os dados colhidos, possíveis ações de controle do crescimento da enfermidade e tomada de decisões. 
 
Existem modelos epidemiológicos para tudo que se imaginar. No entanto, o modelo matemático para adoção de medidas epidemiológicas de saúde pública é uma estratégia adotada há mais de 100 anos. Os primeiros surgiram a partir de cálculos manuais, enquanto os mais recentes utilizam capacidade de computadores.
 
Dengue, HIV, bactérias causadoras de infecção alimentar, Covid-19. A ideia de utilizar o raciocínio lógico para identificar a disseminação epidemiológica começou a ser desenvolvida em 1854. Desde 1910 o índice R0 é um dos principais parâmetros para a construção de um modelo matemático destinado a prever o comportamento epidemiológico. Em 1927, foi criada a modelagem SIR, que divide a população em três categorias principais: suscetível – aquele que pode ser infectado; infectado – indivíduo capaz de transmitir a doença; e “removido” – pessoa curada ou falecida.
 
Um dos casos de maior repercussão sobre o papel de matemáticos durante a pandemia foi um modelo apresentado pelo Imperial College de Londres. As previsões são realizadas com base em uma modelagem matemática integrada com ferramentas computacionais.
 
Os modelos matemáticos para a mesma situação podem apresentar resultados diferentes, e as previsões que não se concretizam são um acontecimento comum. No entanto, é a partir desses modelos que governos do mundo todo estão traçando suas estratégias para conter a maior crise sanitária dos últimos 100 anos.
 
Quando aparece uma doença como essa, as autoridades de saúde ficam mais ou menos perdidas, sem saber o que fazer porque é tudo muito novo. Nessas condições, a única coisa que resta é lançar mão desses modelos matemáticos para fazer projeções.
 
Outra área que pode auxiliar em contextos de pandemia, principalmente no que diz respeito à orientação de governantes, é a análise de riscos. Através dela, é possível ter uma ideia de possíveis cenários mediante ações de controle do crescimento do contágio. Isso é importante para estabelecer de que forma o movimento da população poderá ser liberado, sem perder o controle da situação.
 
Claro que muitas das vezes os gráficos são mais catastróficos que a realidade. Isso é o paradoxo do sucesso, ou seja, os epidemiologistas mostram o caos caso não sejam tomadas medidas de prevenção. Os matemáticos são videntes que torcem para errar. O objetivo não é espalhar terror, mas evitar que as previsões se concretizem.

*Bartolomeu de Gusmão Júnior é matemático e engenheiro civil

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Bartolomeu De Gusmão Júnior

*

Mais Lidas
Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]