Quando criança, eu e meus irmãos, primos e vizinhos costumávamos brincar de polícia e ladrão. Naquele tempo uma conhecida brincadeira de rua. O curioso é que essa brincadeira nos dizia, desde lá, que de boa intenção o inferno está cheio, isso para dizer que não há nada de inocente no brincar infantil, mas uma incógnita a decifrar.
Freud bem que nos ensinou a ver nas brincadeiras da infância o jogo simbólico por excelência. Nessa brincadeira presumia-se o risco. A possibilidade dos ladrões vencerem estava dada. À polícia caberia capturá-los num curto espaço de tempo, e aos ladrões apenas serem espertos o suficiente para não serem pegos. Quanta desvantagem nesse jogo, não?! Os ladrões utilizavam todos os meios de engambelar seu grupo oponente, metamorfoseavam em ambientes e esconderijos, e tudo dependia do mundo dos espertos.
Até, então, tudo não passaria de uma diversão, se não fosse o fato de crescermos e sofrermos a amnésia das justaposições, acreditando em super-heróis, e fingindo que o diabo não veste “prada”. E daí, depois de uma geração inteira de brincadeiras de ruas, assistimos estarrecidos, num clima malcheiroso, aos ladrões borrarem suas cadeiras, bem debaixo do nosso nariz!
O ladrão é aquele que ri da nossa cara, goza do espanto do outro, de se ver tão arbitrariamente enganado, e nos diz: você é um tolo! Enquanto eles ladroam nosso tempo, nossos sonhos, uma claque inteira mimetiza, brinca de “macaco viu, macaco faz”! Os ladrões de plantão distraem-nos com suas performances grosseiras e nos chocam com seus bagos à vista!
Dessa história toda, podemos dizer que algo fica: o dito pelo não dito!
*Denise Fleury.