Nádia Junqueira
Pelas ruas de São Jorge, entre turistas novos, antigos e moradores, ouve-se falar em Doroty Marques. Pelo trabalho artístico com as crianças da região no projeto “Turma que Faz”, pelas inusitadas participações em shows do Encontro e pelas apresentações fogueiras afora. Quem vê por aí Doroty, pode ter certeza de que ela é daqui ou está por aqui faz tempo. Mas não é bem assim. Filha de pai nômade, nômade Doroty é, e está por São Jorge há seis anos. Dos 65 anos de vida, ela está pelas cidades do Brasil há 40 fazendo arte.
Ela acredita na arte como ponte para formar seres humanos mais sensíveis. Por isso, sai por aí ensinando música, teatro e pintura para grupos de crianças a peões de obra. Sua primeira experiência foi há 35 anos em São Simão. Na época, era casada com engenheiro que foi trabalhar em uma das maiores obras de hidrelétrica do país. “Era uma solidão sem fim a cidade depois das seis da tarde. Não tinha nada para fazer e a cidade mais próxima era a 180 km”, conta. Diante dessa situação, Doroty começou a ensinar mímicas, se inspirando em Chaplin, aos três mil peões da obra e seus filhos. Ela também cantava e tocava percussão aos trabalhadores.
Para o marido, Doroty não podia ser artista. Entre a arte e o cônjuge, ela escolheu a primeira e continuou sua peregrinação. No Pará, em Tucuruí, a artista se apresentou numa obra da Eletronorte para 15 mil pessoas. “Cheirava macho! Foi incrível”, conta Doroty dando uma risada longa e intensa. Depois ela seguiu carreira de cantora, fez shows em todo país ao fazer parte do selo independente Marcos Pereira, que lançou cantores como Cartola e Pixinguinha. Por outro lado, o que Doroty queria não era fama e continuou seu trabalho de arte e natureza. “Não gosto de fazer coisa que muita gente faz”. Aprendeu a escrever projetos e assim foi tocando sua vida: peregrinando e ensinando arte por meio de projetos.
“Arte é um caminho, mas tem muito estigma. Eu falo para uma mãe que o filho dela é um verdadeiro artista e ela diz: Deus me livre! Meu filho tem que ser engenheiro ou advogado”, conta Doroty. Para ela, as pessoas separam alma de corpo e é absolutamente possível ser um engenheiro e excelente artista. Sua intenção não é formar artistas, mas pessoas mais humanizadas.
Em São Jorge
Antes de chegar na vila, Doroty estava pela Floresta Amazônica e depois por Cuiabá. Seu irmão, o violeiro Dércio Marques, a convidou para tocar com ele no Encontro de Culturas há seis anos. Ela veio e acabou ficando. Doroty se sensibilizou com a falta de lazer e arte na vida das crianças e conta. “Juliano (organizador do evento) me disse que era difícil encontrar alguém que topasse ficar aqui e fazer esse trabalho cultural. Além disso, eles não tinham dinheiro. Eu disse: eu cobro amor”. E completou dando outra risada alta: “no fundo eu sou uma velha idiota”.
Desde então, Doroty faz trabalho de arte e ecologia com as crianças de São Jorge e Alto Paraíso. Hoje, são 150 meninos e meninas envolvidos no projeto. As aulas são diárias e duram duas horas por dia. Dércio e Doroty já gravaram um CD com os meninos da vila e outros sete com crianças de outros cantos do país. “A criação coletiva é muito mais interessante. É um trabalho bonito que muda a trajetória das crianças”, conta o violeiro Dércio Marques, que participou da conversa.
Hoje o projeto tem patrocínio da Petrobrás, que fornece uma bolsa mensal no valor de R$7500. Com essa verba, Doroty remunera algumas crianças que estão com ela desde o início para que ensinem outras crianças. “Eles devem se tornar multiplicadores culturais”. O projeto tem apoio dos pais e a artista conta que quem não ajuda, não atrapalha, pelo menos. O trabalho ganha ainda outra dimensão. As crianças da “Turma que faz” até mudaram o nome das ruas da vila. A rua um passou a se chamar Baru, a dois, Pequi e assim por diante.
Mas, afinal, por que a nômade Doroty ainda está por São Jorge? “Ainda não consegui formar líderes. Se eu for embora, o projeto acaba. Quando eu conseguir, eu deixo a vila”. Ela conta ainda que tem percebido que em duplas ou trios, eles conseguem liderar algo. Ela ensina então os filhos de garimpeiros a escrever projetos e até a argumentarem e articularem, para que possam pleitear demandas junto a autoridades e empresas. Doroty já teve filhos, espera um bisneto, já escreveu um livro, gravou CD’s e plantou árvores. “Agora só espero morrer”, revela a artista em meio a mais uma risada debochada.