A famosa frase de que religião, política e futebol não se discute, apesar de extremamente falaz (porque todos esses se discute, sim) faz sentido, em certa medida, ao colocar os três temas na mesma frase. Primeiramente, porque talvez sejam os três elementos que mais levem um ser ao radicalismo e fanatismo (e talvez por isso, os fanáticos não gostem de debater suas convicções). Depois, porque somos seres mutantes. Mudamos de opinião, de marido, de profissão, de gostos, de orientação sexual, mas mudar de time, religião e convicções políticas (atenção, ninguém falou em partido) é um pouco mais difícil (de jeito nenhum, impossível).
É como um católico que se converte e passa a frequentar a Assembleia de Deus e não deixa de ter um santo em casa. Ou de fazer uma promessinha. Como um ex-PFL que faz alguma aliança com um partido de esquerda, mas continua achando que esses aeroportos cheios de pobres são um problema. E na última semana percebi que é difícil mesmo mudar de time. Você pode ignorar, não dar a mínima para futebol, mas basta uma importante decisão para perceber que o time, que sua mãe escolheu para chamar de seu, mexe com você. É, porque na maioria das vezes, você não escolhe ter um time. É uma coisa arbitrária que vem de pai, mãe, tio ou avó.
E aqui em casa quem escolheu o time dos filhos foi minha mãe. Meu pai, daqueles santistas por causa de Pelé, esteve longe de ser torcedor exemplar. Da turma dos que não têm ideia do nome do técnico. Já minha mãe é daquelas que, às quartas, chega do trabalho às 22h e corre para ver qual time for jogar. Sabe escalação, dá opinião e acabou me deixando longe de ser santista. Mas também passei longe de ser torcedora de carteirinha. Quando criança, passei perto de ser. Pedia camisa oficial de presente de aniversário, ganhei um quadro bordado do Corinthians de um tio, decorei hino, comprava toda tranqueira do time de souvenir de viagem. Mas passou.
Acabei me tornando torcedora de arquibancada quando Timão visitava Goiânia (só pela emoção de cantar com a Gavião) e de momentos tensos. Das decisões importantes para o time, como aquela em 2007 que colocou Corinthians na segunda divisão (tristeza que desconheço hoje). Desde a Copa do Brasil, em 2008, que perdemos a final para Sport, em Recife, acho que não dei mais moral para o meu time. A ponto de achar que não sentia mais nada por ele. Mas aí que percebi que com time não se rompe mesmo. E “Gaviões” está certo de anteceder “da fiel”.
Reencontrei com minha fidelidade na semi-final com Santos, quando se decidia a vaga para final. Estava absolutamente exausta na noite dessa quarta e meu plano era ir dormir antes mesmo da novela. O jogo logo começou e tentei me levantar do sofá de cinco em cinco minutos, afinal, eu não tenho esse envolvimento todo com meu time nem com futebol. Quando me dei conta, estava ali, com minha mãe, gritando contra meu pai, e me arrepiando com a possibilidade de ir para final. E, sem querer, apareceu um nó na garganta quando soou o apito e a final deixou de ser possibilidade.
“Que porcaria de emoção é essa?”, me questionei. Não fazia sentido. A verdade é que não tem nenhuma explicação lógica. Assim como não tem mesmo sentido racional toda a felicidade em ser campeão da Libertadores pela primeira vez. Deixo para quem sabe falar de futebol aqui (João Gabriel e Pablo Kossa) para tentar racionalizar a importância desse título e dizer por que, afinal, Timão mereceu. Toda essa história de que era uma equipe, sem estrelas, que jogou com equilíbrio no segundo tempo, que teve Tite fazendo bom trabalho e mimmimi.
Eu só quero dizer que não adianta, você aí, tentar encontrar razões para tanta felicidade dos torcedores. Passar raiva com tanto bafafá na mídia e redes sociais em ver Corinthians ganhar título inédito. E também não adianta minimizar e ridicularizar a importância que futebol tem na vida do brasileiro. Basta pensar que, desde a Grécia antiga, os esportes ocupam lugar privilegiado na vida de uma sociedade. E vamos para mais uma Olimpíadas para provar que não é fenômeno de um tempo e nem de um povo. Diante dos meus arrepios e da festa em São Paulo, chego acreditar em Rousseau. Os jogos, as festas cívicas e a música só podem estar mesmo nas raízes de uma sociedade.