Seu celular calcula quantas horas você passa conectado? Antes da quarentena, eu passava cerca de 3 a 4 horas on-line. Desde março do ano passado, esse número duplicou! É quase um terço do meu dia dividido entre redes sociais, portais de notícia e os mais diversos aplicativos. Como social media e comunicóloga, uma parcela disso é trabalho, mas boa parte é meu tempo livre sendo consumido por telas. Para quem está dentro de casa nos últimos 9 meses, isso significa que nossa vida social e profissional tem sido muito mais on-line do que desconectada. É um pouco assustador, principalmente se pensarmos sobre como essa internet é nova e não regulamentada.
A falta de regularização, que tem sido lentamente combatida pelos países (inclusive por nós, com a Lei Geral de Proteção de Dados), é um problemão, mas não é o único. Falta ao usuário também encarar o digital como um espaço de direitos e deveres. A internet não pode mais ser considerada como possibilidade de anonimato e impunidade. Já estamos vendo os efeitos do excesso de convivência digital e das realidades virtuais e aumentadas no psicológico dos 'internautas', na forma de fazer política, na indústria da beleza, no Jornalismo… As mudanças são rápidas e vertiginosas.
É comum se sentir desgastado, ansioso e estressado. Estamos ilhados pela quantidade de dados, notícias, tretas, informações falsas, memes, vídeos… Existe um algoritmo que seleciona a todo momento o que devemos consumir em seguida, mas ele não é nosso amigo. Os algoritmos nos querem viciados, vulneráveis, prontos para entregar nossos dados, dinheiro e opiniões. E é assim que acabamos expostos a todo tipo de lixo, mesmo que inconscientemente estejamos sonhando com uma casa no meio do mato sem sinal de rede nem wifi.
Quem me ensinou a usar a internet foi a minha mãe. Na época que os computadores pessoais se tornavam acessíveis e populares, minha mãe já estava conectada pois trabalhava em uma redação de jornal. A gente tinha internet discada e eu me lembro do barulho e do ritual para acessá-la. Foram muitos anos de MySpace, MSN e joguinhos online até surgirem as redes sociais mais ou menos como conhecemos hoje. Não tive Orkut e só pude criar uma conta no Facebook quando fiz 16 anos. Aos 12, ganhei o direito de entrar no Twitter e no Instagram com supervisão parental ?-? e isso fez toda a diferença.
Em 2020, fui considerada participante destaque no processo seletivo do programa Cidadão Digital, iniciativa da ONG SaferNet Brasil em parceria com o Facebook. O projeto forma mobilizadores que vão atuar em escolas públicas ensinando jovens de 13 a 17 anos sobre segurança e cidadania digital. O conceito está relacionado ao uso responsável da internet e considera o usuário um sujeito de direitos e deveres. A SaferNet faz um trabalho primoroso para garantir que cada vez mais jovens entendam que a existência digital não é sem consequências e que há maneiras legítimas de combater violações graves cometidas nas redes.
Mesmo sem saber, minha mãe me ensinou a ser uma cidadã digital. Sempre que eu postava um tweet absurdo, ela vinha até o meu quarto, me ligava ou mandava mensagem me pedindo para apagar e explicava que aquilo não era legal. Com ela, aprendi que as @s de quem eu eventualmente falava mal eram pessoas do outro lado da tela sobre quem eu não sabia nada de fato, que podiam estar passando por algo ruim, mas que se não, ainda assim não mereciam violência gratuita. Aprendi que ofensas não são críticas construtivas e que na maior parte das vezes é melhor não dizer nada. Que nossas opiniões não são tão importantes assim – e que as das outras pessoas também não. Que devemos nos manter informados e sempre ler, ler e ler antes de dar palpite ou compartilhar alguma informação. Ela tentou bastante me ensinar que não devemos xingar tanto, mas não posso dizer que aprendi direito essa última parte.
Muitas plataformas já têm criado mecanismos para forçar seus usuários a aprender tudo isso que minha mãe lutou para me ensinar quando eu estava descobrindo o que era a internet. No Instagram e no Facebook, se você fizer um comentário que o algoritmo já reconhece como ofensivo, eventualmente ele te dá alguns segundos para desistir de publicar aquilo. No Twitter, uma mensagem sugere que você leia a matéria antes de dar RT em um link. Recentemente, todas as redes criaram políticas mais rigorosas contra informações falsas, inclusive disseminadas por órgãos e gestores públicos como o presidente dos Estados Unidos e o Ministério da Saúde no Brasil. As agências de checagem de fatos estão trabalhando exaustivamente para conferir declarações de figuras públicas sobre a pandemia e o coronavírus. Mas isso não é o bastante e nunca vai ser! Essas empresas, tão poucas e tão poderosas, fazem o mínimo necessário para tranquilizar populações e tirar governos do seu encalço.
Em uma oficina de checagem de fatos da Agência Lupa, da Revista Piauí, entrei em contato com um dado do Laboratório de Mídia do Massachusetts Institute of Technology (MIT) que concluiu que fake news têm um alcance seis vezes maior que notícias verdadeiras no Twitter. Para nós, brasileiros, isso não parece mais do que óbvio. No entanto, diante de uma estatística como essa, nos resta olhar para nós mesmos. Somos nós quem fazemos a internet. Ela já não é mais um mar aberto que precisamos desbravar, mas uma cidade mais ou menos organizada onde muitos de nós passamos boa parte do nosso tempo. Cabe a nós cunhar as regras que podem salvar aquilo que tinha tudo para ser nossa terra prometida. Com a quantidade de informação de qualidade que temos a um toque de distância, não parece um desafio tão impossível.
*Manuela Costa é escritora e comunicóloga. Trabalha como assistente de produção na produtora brasiliense Forest Criações. É criadora do projeto Calcinha Bege, dedicado a discussões sobre a imagem corporal de mulheres no Instagram. É formada em Comunicação Social/Audiovisual pela UnB.