No decorrer do ano passado eu tive o prazer de ler os romances Enterre seus mortos (2018) e Assim na terra como embaixo da terra (2017), os livros mais recentes da fluminense radicada no Paraná, Ana Paula Maia. Se você ainda não ouviu falar dela, devia. A escritora, mulher e negra, fez recentemente a sua transição para a telinha com a minissérie original da Globoplay, Desalma. Mas me adianto. Ambos os livros ganharam o Prêmio São Paulo de Literatura em 2018 e 2019 e foram nomeados na categoria de melhor romance do Prêmio Jabuti.
Por aí se entende meu interesse. Mas não queria falar destes livros especificamente, mas dos que vieram antes: após lê-los, descobri que a autora já possuía cinco romances publicados entre 2003 e 2013, alguns deles traduzidos para outros idiomas. Decidi ler um deles, Carvão Animal (2011), aleatoriamente.
Fui hipnotizado. Quando vi, ao longo do mês de fevereiro deste ano, havia devorado toda a bibliografia da autora e ficado fascinado, especialmente, com o seu “Maiaverso”. Atenção, acadêmicos da narratologia e da literatura: há uma dissertação ou talvez até mesmo tese enterrada aqui.
Com exceção de A Guerra dos Bastardos (2007), todos os demais livros da autora possuem o mesmo grupo de protagonistas e se passam quase sempre no mesmo cenário ou cidade. Com uma inspiração clara em Rubem Fonseca, todas são histórias sujas, violentas e brutas de homens (quase todos eles com as inicias EW, como Erasmo Wagner e Ernesto Wesley) que fazem os trabalhos fundamentais que ninguém quer fazer ou sequer pensar sobre: abatedores de gado; mineiros de carvão; lixeiros; coveiros.
O resultado é visceral, fascinante, imersivo e ricamente construído. O Maiaverso se dá em algum lugar perdido entre os anos 1980 e os anos 2010, na periferia e ao redor de qualquer cidade grande, entre um povo miserável que vive um dia de cada vez. Até mesmo a natureza neste mundo ficcional é áspera: Maia destaca os rios poluídos cheios de peixes mortos, a chuva ácida, o frio cortante do inverno e o calor infernal do verão. Em suas histórias a Terra, nossa casa, se torna lentamente hostil e bestial como os homens que preenchem as páginas de suas narrativas.
Pode não parecer, mas também são leituras fáceis e rápidas que me permitiram voar por todos os livros em poucas semanas. Talvez não seja o tema mais leve para se ler durante uma pandemia, mas aconselho que lhes seja dada uma chance: uma vez seduzido, é impossível não se perder nas profundezas desta escritora brasileira e contemporânea tão talentosa.
*José Abrão é jornalista e mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG. Atua na área de cultura e tecnologia e é pesquisador de temas relacionados à cultura pop, cibercultura, comunidades digitais, games e fandom.