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Pandemia, Relações Internacionais e realpolitik

11.03.2021 - 09:38:39
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O dia 11 de março tem se caracterizado como uma data agourenta no início do século 21. Foi nessa data que em meio à primeira década do século, no ano de 2004, a cidade de Madri, na Espanha, sofreu um violento atentado terrorista à bomba que traumatizou a sua população e reiterou o discurso belicista planetário da chamada guerra ao terror, que teve início no fatídico 11 de setembro de 2001. Logo no início da década seguinte, em 2011, também num 11 de março, o Japão foi sacudido por um grande terremoto, que foi seguido de grande tsunami que ceifou a vida de muitos japoneses e causou o acidente nuclear de Fukushima, cuja estrutura não resistiu aos abalos sísmicos.

Por coincidência, em 11 de março de 2020, bem no período de transição entre as décadas, a Organização Mundial de Saúde decretou oficialmente que o mundo passava por uma pandemia de Covid-19, também conhecido como SARS-COV-2. A data é um marco sinistro, que assinala o tempo em que a humanidade entrou numa espiral vertiginosa que agora completa um ano e que arrasta a todos no turbilhão de uma metafórica tsunami que afeta a tudo e a todos. Apesar de ser prevista por estudiosos da área, a pandemia da Covid-19 pegou o mundo de surpresa, graças à peculiar característica humana de muitas vezes deixar-se levar por um ingênuo otimismo no que diz respeito à prevenção de tragédias de todos os matizes. O Japão, por exemplo, considerava a sua usina nuclear inexpugnável pela natureza.

Nesse contexto, e no âmbito das relações internacionais, as ações de combate à pandemia adotadas pelos países mundo afora permitiram verificar em tempo real a grande importância da cooperação internacional e dos valores democráticos em tempos de crise global. Assim que o vírus foi identificado, ainda em dezembro de 2019, como sendo da classe Coronavírus, laboratórios financiados por governos e farmacêuticas do mundo todo retomaram suas pesquisas relativas à produção de vacinas contra o SARS (outra doença respiratória que compartilha a mesma classe viral com a COVID-19) com o objetivo de fabricar um imunizante para a nova doença, às vezes em colaborações público-privadas. Já em agosto de 2020, a primeira vacina, a Sputnik V da Rússia, estava pronta e foi questão de poucas semanas até outras vacinas de outros países e farmacêuticas também ficarem disponíveis.

A logística que envolve a negociação quanto a insumos para a produção de vacinas e a sua aplicação ao redor do globo é uma grande amostra do quanto os estados mundiais recorrem à cooperação internacional quando em necessidade. Por outro lado, ficou evidente como embates diplomáticos improdutivos só atrasaram as ações que precisam ser tomadas a fim de acelerar o combate à pandemia. Um exemplo dessa conjuntura é o Brasil, que recentemente retomou as negociações amigáveis com países fornecedores de insumos. Nossa diplomacia, mais do que qualquer outra, sabe o valor histórico de políticas de boa vizinhança em nome do bem-estar da população que ela representa.

Além desse fator, a transparência de dados característica das democracias, quando elas existem e funcionam, permite aos organismos internacionais e à mídia de toda parte do mundo que possam fazer seu trabalho de informar corretamente a população da gravidade da situação, bem como facilita que medidas combativas da pandemia sejam tomadas com mais rapidez. Assim, as relações internacionais, durante a pandemia, demonstraram mais uma vez que suas melhores características são necessárias para assegurar o bem-estar dos povos do mundo.
 
A REALPOLITIK E A PANDEMIA
A realpolitik, “política real” em tradução livre, é caracterizada, conforme o Dicionário de Cambridge, como sendo “a política na prática, decidida mais pelas necessidades urgentes do país, do partido político etc. do que pela moral ou princípios”. O termo nasce na Alemanha novecentista e é de cunho pragmático. Em outras palavras, a realpolitik representa uma postura essencialmente pragmática diante das colorações ideológicas e suas polaridades, que têm sacudido o mundo neste momento, numa outra perspectiva também metafórica.

Conservadores e progressistas representam dois polos sob os quais se agrupa grande quantidade dos governos mundo afora. Nessa conjuntura global, muitas vezes decisões importantes são tomadas pensando-se em dividendos ideológicos. Com o surgimento da Covid-19, e seu caráter pandêmico, governantes tiveram de tomar decisões baseadas na realpolitik, mesmo que isso represente constantes guinadas em discursos fortemente ideológicos.

Num contexto de desespero causado pelas mortes dolorosas nas UTIs em todo o mundo, não há o mínimo espaço para que se recuse, por exemplo, o auxílio de vacinas pelo simples fato de terem sido desenvolvidas por nações com diferentes posturas ideológicas. Retóricas dessa natureza não passam de bravatas de quem quer que as profiram. A boa diplomacia determina que num momento tão grave, como o que ora vive a humanidade, as diferenças ideológicas têm de ser postas de lado para que se alcance o bem-estar global da forma mais rápida e eficiente possível.

Perdido em Marte”, filme de 2015 dirigido por Ridley Scott, apresenta um futuro utópico em que a humanidade parece ter entrado nos trilhos da convivência harmônica. O enredo apresenta o mundo unido, com as principais potências cedendo segredos científicos importantes para que se trouxesse de volta à Terra um astronauta norte-americano que ficou acidentalmente retido em Marte. Claramente, num contexto contemporâneo de realpolitik, o mundo ainda se encontra distante de uma tal utopia. No momento atual, porém, se o colaboracionismo internacional não funcionar, corre-se o risco de barbáries pontuais que evocam distopias como as que um sem número de peças cinematográficas têm representado. 
 
*Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; doutor em Letras e Linguística pela UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte.
 
*Letícia Martins Lima é graduada em Relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás.

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por Gismair Martins E Letícia Martins

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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