Em uma hora ou outra da vida, todo mundo acaba sendo conselheiro sentimental. São parentes, amigos e até mesmo completos desconhecidos que chegam com problemas de relacionamento e você é instigado a dar um palpite, um conselho, prestar uma assessoria. Se ainda pagassem pelo serviço, né… Mas mesmo sem pingar um real no bolso, você ouve aquela longa história cheia de erros dos dois lados e tem que falar algo para tentar ajudar seu interlocutor. Sempre penso comigo mesmo: “Logo eu, que não dou conta nem de domar meus próprios demônios tendo que falar algo construtivo para alguém..”. Mas isso é o que menos conta nesse momento. O lance é que você tem que opinar.
Uma amiga veio chorar as pitangas sobre seu namorado. Ela tem a senha do e-mail dele sem que o infeliz saiba. Então ela monitora os bate-papos e mensagens do cara. Ela viu que ele marcou de sair com uma amiga de trabalho e está desesperada. Não sabe o que fazer para impedir o encontro sem que entregue seu subterfúgio criminoso de invasão de privacidade. Chamou ele para ir a um show de uma bandinha pop que tocará em Goiânia, ele negou. Sabiamente, disse que não gostava do som dos caras. Aí ela sugeriu um jantar para esse dia, ele falou que iria pensar. Enquanto isso, ela sobe pelas paredes de angústia e ansiedade.
Ouvi tudo com a calma de um monge tibetano e me lembrei de um antigo bordão do SBT: “Quem procura, acha!”. Disse exatamente isso para ela. É claro que se você for fuçar nas coisas particulares de quem você está se relacionando vai achar umas coisinhas esquisitas. Talvez não tão explícito como nesse caso acima, mas certamente que lhe deixarão com a pulga atrás da orelha. Pode até ser que não seja nada demais, mas aquela incerteza de Otelo bate e não tem jeito de fazer a cabeça parar de pensar bobagem. Então, sempre é bom se lembrar do conselho da vovó: “O que os olhos não veem, o coração não sente”.
A raiz de todo problema está, na verdade, no tal do ciúme. E a maior bobagem que já inventaram é que existe uma cota de ciúme que é positiva dentro de um relacionamento. Mentira. Não existe dose segura de ciúme. Ciúme é pior que crack: vicia rápido e mata com toda certeza. Não só literalmente como em casos extremos de crimes passionais, mas mata também o amor. É um sentimento totalmente maléfico, que tem a ver com a necessidade de posse do ser humano. Ou seja, você quer que aquela pessoa seja exclusivamente sua. Tipo dona uma da outra. Embora você mesmo se dê o direito de dar umas circuladas por aí, né… Perverso em sua essência, o ciúme destrói qualquer tentativa de racionalidade dentro de um relacionamento.
Depois de toda essa palestra sobre o ciúme, minha amiga saiu de fininho e com o rabo entre as pernas. Sei que ela não vai mudar seu hábito de entrar no e-mail do namorado e dar aquele baculejo, mas ao menos não vai mais chegar em mim para alugar sobre o conteúdo dos e-mails que ela sorrateiramente surrupiou.