Tanto a literatura quanto a linguística se servem do conceito de intertextualidade em suas construções teóricas. Na literatura, o conceito é elemento-chave para os postulados da literatura comparada, que busca estabelecer vínculos entre a textualidade de obras separadas no tempo e no espaço, numa abrangência ampla que se estende por séculos e até milênios. Na linguística textual, por sua vez, o conceito de intertextualidade se divide entre o intertexto explícito e o implícito, que vai depender, muitas vezes, da competência do leitor, conforme estabelecem teóricos tanto da linguística quanto da literatura.
As relações intertextuais apresentam, ainda, camadas de expressões que reforçam o quão sutil o conceito pode ser. Um exemplo bem claro dessa sutileza que permeia a intertextualidade em seu conjunto cognitivo pode ser apreendido na relação entre dois textos literários que têm por base a escritura bíblica e os seus ecos culturais ao longo do tempo, que influenciaram e influenciam até hoje, e de maneira decisiva, a cultura ocidental e, por extensão, a mundial.
Na atualidade, a grande polarização política e cultural que ocorre em diversas nações, dentre as quais o Brasil, originam-se do entrechoque entre a mentalidade cristã, teocêntrica por excelência, e a mentalidade antropocêntrica levada ao paroxismo a partir do renascimento, culminando na estruturação de paradigmas de ciências sociais no século 19 que adotam o materialismo histórico e dialético como bases de uma visão de mundo que se poderia denominar antropoteísta, ou seja, que tem o homem assumindo o lugar de uma deidade.
Assim, mais do que nunca o mundo se torna um campo de batalha entre as duas grandes cidades concebidas pela genialidade de Santo Agostinho a partir da textualidade bíblica: a cidade de Deus e a cidade dos homens. Ambas convivendo na Terra em um mesmo espaço, numa constante luta ideológica que desafia os cidadãos de ambas as urbes, que migram de uma para a outra constantemente a exemplo do próprio Agostinho, que de uma visão de mundo maniqueísta passa, mediante a conversão, para a perspectiva cristã, da qual se tornará um dos maiores expoentes em todos os tempos por conta de seu intelecto incomum e privilegiado.
A guerra simbólica, ou nem tanto, entre os dois modelos citadinos espirituais se mostra presente de maneira incisiva entre os dois maiores representantes de ambas as mentalidades em uma passagem dramática da textualidade evangélica, quando Jesus Cristo é tentado no deserto por Satanás após jejuar durante quarenta dias. O texto é narrado nos evangelhos sinóticos de Lucas, Mateus e Marcos. A cena evangélica foi imortalizada na pintura por Sandro Botticelli, pintor renascentista, e faz parte das imagens da Capela Sistina. Contudo, além das artes plásticas, a arte da palavra também se ateve ao magno encontro entre os dois grandes representantes do sistema e do antissistema da proposição teofilosófica do pensador e místico italiano, Pietro Ubaldi.
Jesus no templo
Em 1667 foi publicado um clássico da literatura universal, cuja construção pode ser pensada como uma espécie de versão protestante da catolicidade de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, o clássico das letras do século 14. Escrito por John Milton, “Paraíso Perdido” narra a epopeia da guerra celeste travada entre Lúcifer e o Criador no espaço celestial e seus desdobramentos. Após incontido ciúme em relação a Jesus, o anjo portador da luz arrasta consigo um terço dos anjos celestes em rebelião contra Deus.
No ápice da narrativa contada em versos, Jesus assume o comando do exército divino, precipitando Lúcifer e seus seguidores em uma queda dimensional que criará o inferno em espaço cósmico anterior à Terra. Após a construção do planeta e a criação da humanidade, Lúcifer, agora Satanás, dirige-se à Terra para fazer com que o homem, a nova criação divina, perca-se em seus caminhos, numa vingança indireta em relação ao Criador. “Paraíso Perdido” é encerrado com a profecia em torno da salvação humana, cujo plano caberia a Jesus Cristo.
Os contemporâneos de John Milton aguardavam pela continuidade. O poeta e renomado pensador britânico não se fez de rogado. Em 1671 dava ele à publicidade a sequência de sua obra através de “Paraíso Reconquistado”. No Brasil, o épico só foi traduzido em 2014. Nesta sequência, tem o leitor os versos que apresentam o diálogo entre Jesus Cristo e Satanás no deserto, durante o período de jejum e oração em que o Cristo esteve imerso para dar início à vida pública. Ao contrário de “Paraíso Perdido”, a guerra agora é interior, no plano da convicção e da sabedoria divina posta à prova pelas artimanhas retóricas do opositor.
Dividido em quatro partes, intituladas livros, o texto completo se passa no contexto do diálogo cósmico entre os dois personagens fundamentais da teologia cristã. No primeiro livro de “Paraíso Reconquistado”, pode o leitor encontrar Jesus em momento de introspecção no deserto, refletindo sobre o turbilhão de pensamentos em torno de sua jornada até então. Na página 69 podem ser lidas estas palavras:
“Quando ainda criança, não me ative
A brincadeiras; minha mente toda
Concernia ao saber, e a realizar
O bem comum; julgava-me nascido
A esse fim; nascido a promover
Verdade e coisas certas; em meus anos
A Lei de Deus eu li, achei-as doce,
Fiz dela o meu prazer, nela cresci
Em tanta perfeição que, antes da idade
Medida em anos seis por duas vezes,
No grão banquete, ao templo fui, p’ra propor
O que alçaria o meu saber ou o deles;
Pasmei a todos, mas não era tudo (…)”.
O momento da tentação de Jesus no deserto já terá merecido um incontável número de exegese teológica no tempo e no espaço. A sutileza da intertextualidade, no entanto, em nível literário, pode ser encontrada, dentre outros exemplos, pouco mais de três séculos após a publicação original de “Paraíso Reconquistado” com a publicação em 1988 da obra “Um Dia em Jerusalém”. De autoria do Dr. Emídio Silva Falcão Brasileiro, “Um Dia em Jerusalém” apresenta uma construção literária remissiva ao trabalho de Khalil Gibran em “O Profeta”.
Conforme a pesquisadora Linda Hutcheon, a referencialidade a uma obra clássica é um recurso bastante utilizado no contexto do pós-modernismo, constituindo-se frequentemente em uma homenagem ao autor que serve de fonte de inspiração. É o caso de “Um Dia em Jerusalém” e “O Profeta”. Ambas as obras se inserem no gênero sapiencial. Em seu trabalho literário, Emídio Brasileiro se serve da passagem evangélica em que Jesus adolescente dialoga com os sacerdotes do templo de Jerusalém, deixando uma viva impressão de sua sabedoria. O texto de que se serviu Milton é o mesmo do autor baiano radicado em Goiás.
O autor britânico põe no pensamento de Jesus, no deserto, a sua reminiscência da estada no templo. Emídio Brasileiro põe na boca de Jesus quase menino palavras de sabedoria à Gibran que deslumbraram os sacerdotes. John Milton se refere às considerações de Jesus sobre a Lei sacerdotal. Ao sacerdote da Lei, Tibério, fala o Cristo emidiano em “Um Dia em Jerusalém”:
“Poderiam não existir Leis escritas em pergaminhos e o vosso íntimo vos diria o que fazer para serdes felizes.
Podereis sofismar com as vossas letras, mas não com a vossa consciência. […] Segui vossas Leis; contudo, não sejais escravos senão das leis que estão em vós mesmos. Porque frequentemente infringis com prazer o que está escrito, mas não o que está gravado em vossos sentimentos”.
Distantes no tempo por pouco mais de três séculos, essas correlações entre dois momentos literários que se constituem recortes específicos do que haviam escrito os evangelistas sobre a tentação de Jesus no deserto caracterizam bem as sutilezas que podem estar presentes no conceito de intertextualidade em suas perspectivas linguísticas e literárias.
*Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; doutor em Letras e Linguística pela Faculdade de Letras da UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.