Era um jogo para lá de trivial. Da segunda divisão de um futebol em franca decadência, tal qual mostram os números da Fifa sobre o estado zumbi do Brasil nesse esporte. Dois times que já tiveram seus dias de glória e hoje vivem sustentados pela tradição da letra G estampada em seus escudos. Chovia e o gramado era lamacento. Fazia frio e os jogadores não conseguiam esquentar o clima. Um empate de um gol para cada lado, ambos sem brilho, deixava tudo na mesma para as equipes no campeonato: o modorrento meio da tabela. Até que a magia do esporte bretão deu sua cara.
O relógio já marcava mais de 40 do segundo tempo. A defesa do Goiás deu um chutão para frente, pois o empate fora de casa era menos pior para os goianos do que para o Guarani. O zagueiro Rodrigo Arroz, pressionado, recuou a bola do meio de campo para seu goleiro dominar com tranquilidade. Mas… cadê o goleiro? Emerson estava adiantado, já que o time de Campinas era todo ofensivo. E Arroz acreditou na lógica ao passar sem olhar para trás: goleiro fica na área. E Emerson acreditou na lógica ao estar adiantado: se pintar contra atraque, ele estaria melhor posicionado. E quem falou que futebol respeita a lógica? A bola entrou quicando de forma mansa, sorrateira e desafiando todos preceitos racionais.
Goooollll!!!
De cair o queixo. De deixar pasmo. De dar risada (para nós, esmeraldinos) – a vida é uma piada. De ficar puto de raiva (para eles, bugrinos) – a vida é dura. Rodrigo Arroz conseguiu aquilo que todo profissional deseja: entrar para a história. Para azar dele, foi pelo erro e não pela virtude.
Como bem disse o narrador do Sportv, essa jogada irá correr o mundo. É o tipo de gol que vira hit de internet e bomba no Youtube. O cômico do lance é impositivo em todo planeta.
Por sorte do zagueiro, o campeonato é de pontos corridos. Se fosse uma decisão mata-mata, Arroz poderia distribuir o currículo em departamentos de recursos humanos de Campinas hoje mesmo. Não conseguiria mais jogar bola sem essa maldição nos seus calcanhares. Mesmo que o Guarani seja rebaixado por causa de um ponto ou deixe de ascender à Série A por um ponto, outros equívocos ao longo do campeonato diluirão o erro do beque.
Por outro lado, se o Goiás voltar à elite do futebol nacional por causa de dois pontos, nós esmeraldinos precisamos fazer uma faixa de homenagem ao Arroz para exibir no Serra Dourada. Ele nos garantiu os primeiros três pontos fora de casa, ele nos garantiu na divisão de onde nunca deveríamos ter saído. Algo do tipo: “Obrigado, Arroz!”.
Um gol para a história. Mesmo que contra.