A tarde amena do dia 8 de outubro marcava um dia que parecia típico. Tudo seguia como o habitual, os carros enchiam as ruas, uma ambulância vez ou outra cruzava aquele mar de veículos com sua sirene gritante e os ônibus, como sempre, cheios. Parecia típico. Não fosse este o dia em que o Brasil ultrapassou uma nova marca – que não figura como um número louvável: são mais de 600 mil mortos pelo novo coronavírus no País.
O tão evocado
novo normal será vivido por uma nação enlutada. São milhões de famílias destroçadas pelo vírus que, de tão invisível, se tornou avassalador. Seus sintomas acabaram com pulmões não apenas da sociedade, mas da economia. Assim, o caos também fez ascender a
fome no País.
Em um momento tão sintomático de descaso com as vidas, os brasileiros também se perderam, por muitas vezes, na desinformação: sobre salvações mirabolantes e curandeiristas, como o caso de
cloroquina, ivermectina e outros medicamentos citados até o esgotamento como válvulas de escape – mas com suas ineficácias esclarecidas por quem, de fato, entende.
É um olhar vazio a cada esquina, enquanto cemitérios se enchem aos montes. Na política, uma Comissão Parlamentar de Inquérito se finda com investigações sobre o que nos trouxe até aqui – mas, no geral, nada se conclui até o momento, apenas a certeza (e a incerteza) de uma nação que, além de enlutada, está dividida.
São histórias que marcaram: como no Amazonas, onde pacientes morriam sem ar em ambientes tomados por oxigênio. Nunca foram números. São pessoas, mães e pais, irmãos e irmãs, avôs e avós, tios e tias, filhos e filhas, primos e primas, amigos e amigas. Amores. A lágrima nunca secou e não se sabe quando secará. 600 mil ausências constantes, de vidas que agora existirão apenas na memória de quem ficou.
Entre lockdowns e reaberturas, flexibilizações e novas ondas, o Brasil viu mais de um ano e meio ser totalmente direcionado à sobrevivência da nação. Com o avanço da aplicação de vacinas, agora o País tem quase metade de sua população completamente imunizada contra o vírus. Para a dor e a saudade, no entanto, não há remédio.
"Somos muitos Severinos/ iguais em tudo na vida:/ na mesma cabeça grande/ que a custo se equilibra,/ no mesmo ventre crescido/ sobre as mesmas pernas finas,/ e iguais também porque o sangue/ que usamos tem pouca tinta./ E se somos Severinos/ iguais em tudo na vida,/ morremos de morte igual,/ mesma morte severina./" – trecho do poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.
*Théo Mariano é poeta e jornalista, atua como repórter e colunista do jornal A Redação