Nesses dias que estou obrigado ficar dentro de casa, ando assistindo uma quantidade de filmes bem acima do usual. Decidi fazer uma maratona do diretor nascido na Argentina, mas naturalizado brasileiro, Hector Babenco. Dos nove filmes do cara, assisti cinco na sequência. Um por dia, em ordem cronológica. E só não assisti o primeiro, O Rei da Noite de 1975, porque não achei disponível. Se tiver uma cópia por aí, por favor, me empreste.
Vi Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980), O Beijo da Mulher-Aranha (1984), Coração Iluminado (1998) e O Passado (2007). É nítida a diferença de abordagem dos três primeiros, todos falados em português, dos dois últimos, estes em espanhol. Enquanto os 100% brasileiros têm um tom denúncia, do cinema verdade, de discutir problemas sociais, os dois de idioma hermano e que se passam na Argentina tratam de questões mais subjetivas, dramas humanos, de perspectiva mais íntima e linguagem mais poética.
É interessante notar como o mesmo diretor se conecta às escolas de cinema de cada país dependendo da obra. É notório que as obras mais significativas e emblemáticas do cinema brasileiro adotam isso que chamo de tom denúncia, aquele cinema preocupado com as questões sociais. Também é bastante nítido que o grosso do cinema argentino já tem outra perspectiva, com uma pegada mais humana, poética e refletindo sobre questões comportamentais e existenciais. Naturalmente existem exceções fartas dos dois lados, mas pego aqui um caminho propositalmente generalizante para refletir Babenco.
Daria para adotar a tese de mudança de perspectiva do diretor ao longo da carreira se tratássemos só das cinco obras que assisti recentemente. Poderíamos ser induzidos ao erro de que ele até dado momento se importou com o social e depois partiu para o particular. Contudo, em 2003 ele lançou Carandiru (que só não assisti agora por ter visto no cinema quando esteve em cartaz). Esse filme, inteiramente vinculado à escola brasileira de cinema verdade, está cronologicamente posicionado justamente entre as duas obras faladas em espanhol que destaquei anteriormente. Ou seja, a questão não se trata de uma alteração no interesse de Babenco e sim de adequação a cada escola de cinema.
Por que o cinema de cada país tem essa característica tão forte a ponto de fazer com que Babenco se acomode em cada escola conforme a obra? Não faço a mínima ideia. Não tenho uma relação de estudioso com o cinema. Estou longe de caras como meus amigos Lisandro Nogueira e Rodrigo Cássio, verdadeiras enciclopédias cinematográficas ambulantes. Sou apenas um curioso que gosta de ver filmes. Simples assim. Como tenho um maldito transtorno obsessivo-compulsivo, o popular TOC, assisto as coisas em ordem como fiz agora com Babenco. Quando começo uma série blaxploitation, assisto tudo. Monty Phyton, mesma coisa. John Wayne, idem.
Se você tem uma tese da razão por que cada país produz um cinema tão característico, por favor, não se acanhe, mande ver aí nos comentários. Eu sinceramente gostaria de entender isso melhor. Confesso que fiquei instigado em ver como Babenco se sairia em uma obra do cinema verdade falado em espanhol e passado em Buenos Aires, tal qual como seria um filme poético em português no Rio de Janeiro. Um bom desafio estético para o diretor, saindo da zona de conforto, não?