Segundo meu ídolo Anthony Bourdain, a gastronomia é a nova pornografia. Eu iria mais longe: a comida é o novo sexo. As pessoas não só babam e se lambuzam diante de um prato feito, como fotografam, postam e se vangloriam da refeição que acabaram de comer para meio mundo.
Comer e não fotografar seria como fazer sexo com o Brad Pitt e não contar pra ninguém. Ou seja, um desperdício. Afinal passar a noite com o Brad e não esfregar o fato na cara das suas amigas, seria o mesmo que ir jantar no estrelado Dom do chef Atala e não postar nenhuma fotinha no Instagram. No fundo, a gente quer é matar os outros de inveja. E poucas coisas (com exceção de sexo com Brad Pitt, no caso das mulheres, ou com a Angelina Jolie, no caso dos homens) despertam mais inveja nos outros do que um fotogênico prato de comida.
Não é a toa que a chef Roberta Sudbrack diz que tem ímpetos de tirar o prato da frente do cliente quando, antes da primeira garfada, o sujeito saca seu smartphone ou câmara para fotografar. Obviamente a chef não é doida nem nada e deixa pra lá, mas contou em uma entrevista que eu li que nada a irrita mais do esse comportamento insano que a gastronomia tem despertado nas pessoas, inclusive até nas mais educadas.
A comida agora adquiriu um status superior, não é apenas para encher o bucho, a gula e os prazeres mais arcaicos do ser humano. A comida virou uma “experiência”. E se a experiência não for compartilhada, perde até o sabor.
Aliás a comida hoje não é mais como um dia conhecemos, tipo feijoada com cara de feijoada, bife com jeito de bife. Estão reinventando também a comida, tanto que tem um cara no Fantástico que transforma pratos deliciosos em não sei o quê. No outro dia, o chef tranformou uma moqueca de camarão maravilhosa em uma espécie de gelo esfumaçado. Pela cara do baiano cozinheiro que provou a invenção, ele preferia mesmo era a sua autêntica moqueca com dendê, camarões, tomates, leite de coco e coentro. Até eu que sou mais boba também preferiria.
Hoje pululam programas (como o do meu ídolo Anthony Bourdain no Discovery Travel and Living) por todos os canais da TV a cabo. Países e restaurantes onde jamais vamos colocar os pés, refeições incríveis, pratos exóticos, comidas maravilhosas que nunca, para nossa tristeza, vamos provar. Só de pensar nessa impossibilidade uma lágrima escorre pelo meu olho esquerdo.
Voltando ao Brad Pitt. A gente acha lindo, tesudo, maravilhoso e sabe que ele existe. Mas as chances reais de passar uma noite com ele são mais remotas do que ganhar na megasena duas vezes na mesma semana.
O mesmo acontece com a gastronomia e os programas de TV. Você pode até sonhar que um dia vai naquele restaurante remoto no meio do deserto australiano, mas as probabilidades de isso acontecer são iguais a você dormir com o Brad Pitt e depois ele te pedir em casamento.
E a lágrima escorre.