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O olho inchado e o incômodo berne

10.02.2022 - 08:12:40
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Cem anos bem vividos, com muitas histórias para contar, Maria Luiza Naves, minha mãe, tem uma memória privilegiada e se lembra de fatos de sua já distante juventude, vivida nos anos 1930 na pequena vila de São Geraldo, no então município de Campinas, GO, para onde se mudou aos quatro anos de idade.

A mãe dela morreu de gripe espanhola em 1923 e ela foi criada pela avó paterna, homônima, Maria Luiza de Jesus, que ficou conhecida por todos como Vó Iza. Viúva, Vó Iza se casou novamente em 1925 em Trindade, GO, onde morava, com Francisco de Paula Ramos, conhecido como Chico Rosa, e se mudou, ao formar a nova família, para o povoado que começou em 1922. Levou consigo as duas netas, que tinham perdido a mãe, e a babá, uma jovem que cuidava delas.

Muito católica, parteira e sempre atenciosa com todos, Vó Iza era uma pessoa admirada e respeitada no povoado. Conselheira, era muito procurada, e sempre tinha uma palavra amiga para confortar as pessoas.

Um dia, chegou cedo em sua residência, que ficava na praça central do povoado, um casal que residia numa fazenda próxima. A mulher carregava no colo o filho, com uns dois anos de idade, que chorava muito e tinha um dos olhos inchado. Essa situação deixava os pais desorientados.

– Nos ajude, Vó Iza. Estamos desesperados com esse estado de nosso filho, que sofre muito”, disse a mãe, aflita e já chorando também.

Calma e tranquila, Vó Iza pegou a criança e a colocou na cama; depois, juntou alguns panos e se aproximou, passando a mão na cabeça dela, em seus olhos e a inclinou para a cama quando, nesse momento, para surpresa de todos, caiu um berne, grande e que deveria estar incomodando muito a criancinha.

Em seguida, pegou uma vasilha com álcool produzido numa fazenda próxima, juntou algumas ervas e colocou no olho da criança, pedindo que ela se acalmar e descansar.

Um fato comum, que acontecia de vez em quando.

Os pais se assustaram com a descoberta, ficaram impressionados, agradeceram muito aquela intervenção e, receosos de voltar para a fazenda, já que começava a escurecer, pediram para pernoitar na casa dela, pois não havia pensão no povoado.

– Aqui tudo é simples. Se vocês não se importarem vou arrumar uma cama”, disse Vó Iza, sempre atenciosa.

Agradeceram mais uma vez, instalaram-se e passaram a noite, com todos acordando a cada reclamação da criança, para ajudá-la a suportar aquele momento difícil.   

No dia seguinte, o pequeno mais tranquilo e sem reclamar dos incômodos, Vó Iza aplicou nova medicação caseira, o quadro se estabilizou e o casal, mais despreocupado, pôde voltar para casa e continuar sua rotina diária, sem muita movimentação.
 
*Jales Naves, jornalista e escritor, integra a Associação Goiana de Imprensa (Inscrição nº 1.088, de 10.11.1968), que presidiu em dois mandatos consecutivos (1985-1991), a Academia de Letras e Artes de Caldas Novas (Cadeira nº 30), o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (Cadeira nº 34) e o Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (Cadeira nº 68)

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por Jales Naves

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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