Augusto Diniz
Goiânia – O médico cirurgião Adilon Cardoso diz que o paciente submetido a uma bariátrica obtém maior êxito no tratamento quando, após o procedimento cirúrgico, segue à risca o que lhe foi orientado. "Voltou à atividade física, corrigiu a vida, seguiu as orientações: sucesso após esse período", destaca o profissional, que foi recebido para entrevista no jornal A Redação na semana passada pelo diretor-presidente do AR, João Unes, e o repórter Augusto Diniz.
Especialista nesse tipo de cirurgia, Adilon Cardoso diz que saber lidar com a comida está entre os principais recursos que o paciente precisa adotar. "É preciso fazer uma readaptação alimentar. Depois da cirurgia, o paciente passa a comer de 20% a 25% do que comia antes e estará saciado. Quando a pessoa é operada, ela não vai comer um pouquinho e ficar com fome. Não é assim. Ela come e vai se sentir muito bem, porque terá a saciedade."
De acordo com o cirurgião, a solução dos problemas está em readaptar os olhos."Nós comemos com os olhos. Mas se o paciente que foi operado seguir os quatro mandamentos e fizer atividade física, ele vai atingir o segredo de sucesso a longo prazo."
E quais são os quatro mandamentos? O médico Adilon Cardoso explica que essas são regras que o paciente tem de entender. "É preciso frisar muito no pré-operatório: qual é o preço da cirurgia?", observa o cirurgião. Esse custo está em quatro coisas que precisam "ficar muito claras".
Quatro passos
O primeiro deles é evitar o consumo de doces depois da cirurgia bariátrica. "E no doce entra tudo: refrigerante, sorvete, chocolate, doce de pedaço, de colher, bolachas. Eu costumo dizer que você só vai usar o doce quando alguém te oferecer. Você não compra, não faz. Se não comprou e não fez, você matou 95% das possibilidades de comer doce."
O segundo mandamento é o não consumo de bebidas alcoólicas. "O álcool fica para situações de comemoração muito especial", pontua. Em seguida vem a terceira regra, que é o reaprender a mastigar. "O paciente tem de ter disciplina com horários. Se eu tenho um compromisso às 13 horas, não posso me sentar 12h30 para comer em 5 a 7 minutos e depois pegar meu carro para chegar ao compromisso. Não. Eu vou me sentar à mesa ao meio-dia, comer em 25 minutos calmamente e vou para o meu compromisso", descreve.
Adilon Cardoso afirma que se esse compromisso não for firmado, a pessoa passa a brigar com a cirurgia. "A bariátrica tem um princípio, que é o fator restritivo. Se o paciente quer fazer isso rápido, ele pode vomitar, sentir incômodo, disfagia e dor ao engolir." Quando a pessoa não entende a mudança alimentar necessária, ela começa a travar uma batalha contra a cirurgia, explica o cirurgião. "A cirurgia não te deixa comer, mas você quer comer na marra", observa.

"Você vai sair de casa, não sabe o que vai acontecer, para onde vai, saia de casa
com a sua maletinha com todas as refeições que vai precisar
naquele período" (Foto: Letícia Coqueiro/A Redação)
O quarto mandamento para o sucesso da cirurgia bariátrica vai além da readaptação alimentar, ele passa por estabelecer horários na rotina diária. "Você levanta. Deu para tomar café, bom. Não deu, vamos para a rua. Chegou a hora do almoço e, por algum motivo, não houve possibilidade de comer. Você continua seu dia de trabalho. A carretona tem tanque grande. Chega à noite você estaciona a carretona no posto enche o tanque", descreve Adilon sobre o erro da falta de horários definidos para se alimentar.
O cirurgião pontua que o paciente precisa aprender no primeiro ano após a cirurgia, quando o cérebro perde a capacidade de controlar o corpo por meio dos hormônios – "ele conversa, mas o corpo não responde" -, que é preciso fazer uma reeducação disciplinar dos horários. "Você vai sair de casa, não sabe o que vai acontecer, para onde vai, saia de casa com a sua maletinha com todas as refeições que vai precisar naquele período. Se você fizer isso no primeiro ano, que quando a cirurgia é ativa, a partir do segundo ano o que era difícil passa a ser rotina." De acordo com o médico, essa é a estratégia para o sucesso da cirurgia.
E o segredo do fracasso?
Adilon Cardoso alerta que o fracasso está em não seguir os quatro mandamentos descritos pelo médico. Principalmente no consumo de álcool e doce. "O paciente tem que ter muito cuidado com isso."
O cirurgião diz que muitas vezes as pessoas falam que ouviram em algum lugar que a bariátrica deixa o paciente, por exemplo, alcoólatra. "Estudamos muito isso. Não é verdade. Essa compulsão sempre existiu. Ele seria, de um maneira ou outra. A cirurgia pode até ter sido um gatilho para que aquilo ocorresse um pouco mais rápido, mas a compulsão não foi a cirurgia que criou. O paciente sempre teve."
Riscos da bariátrica
O profissional compara os riscos de uma cirurgia bariátrica com procedimentos de vesícula, como uma colecistectomia, que é a retirada da vesícula. "A retirada da vesícula é um procedimento tranquilo. Você iria tirar com o seu médico porque já tem a ciência de que aquela é uma cirurgia segura. É um procedimento que tem 0,25% de probabilidade de óbito. A da cirurgia bariátrica, na mão de um cirurgião experiente, é de 0,23%. Menor que a da vesícula", compara Adilon Cardoso.
De acordo com o cirurgião, a bariátrica é "um meio onde vamos chegar a um bom estado de saúde". "Só que, para isso, o paciente tem de mudar o estilo de vida. Quando ocorre de um paciente operar e depois voltar a engordar, isso ocorre porque a pessoa achou que o efeito da cirurgia seria eterno. E não é."
Adilon Cardoso explica que o procedimento cirúrgico tem um tempo de duração. "O paciente tem de, com a mudança de estilo de vida, fazer a preservação da saúde." Para o cirurgião, o pré-operatório precisa ser muito bem orientado, com acompanhamento do serviço de psicologia, para que saiba exatamente o que vai ocorrer com ele em seis meses, um ano, cinco anos depois da bariátrica. "Nós já conhecemos essa cirurgia há praticamente 50 anos", ressalta o médico.

Adilon Cardoso alerta que o fracasso está em não seguir os quatro mandamentos
descritos pelo médico. Principalmente no consumo de álcool
e doce (Foto: Letícia Coqueiro/A Redação)
Quem procura a bariátrica?
Segundo o médico, quem procura o profissional para ser submetido a uma bariátrica muitas veses diz que tem uma necessidade de "urgência cirúrgica". "A pessoa diz: 'Eu quero fazer porque já tentei tudo e não tenho condição mais de aguentar. Quero operar logo!'", descreve.
Adilon Cardoso explica que esse não é o perfil de quem tem obesidade mórbida e precisa passar pelo procedimento cirúrgico. "Esse tipo de paciente geralmente é aquele que não tem doença. Está lindando muito com o momento e a frustração do excesso de peso que não consegue perder."
No caso do paciente que tem obesidade, o cirurgião afirma que é uma pessoa que chega ao consultório mais receoso, mas consciente da necessidade da cirurgia. "É um paciente que já trouxe os problemas de comorbidades, que já vive e paga o preço da comorbidade. Ele é mais criterioso. Aceita fazer bem o que é a rotina do preparo para a cirurgia", pontua Adilon Cardoso.
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