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Literatura neoapocalíptica e folclore brasileiro

25.02.2022 - 18:03:46
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A Bíblia é uma obra polifônica; ou seja, composta de muitas vozes autorais, segundo a cultura acadêmica. Seu último livro recebe o título de Apocalipse, cuja narrativa cristaliza um gênero literário específico.

A pesquisadora portuguesa, Teresa Pinto Coelho, é uma importante autoridade sobre o tema no âmbito da literatura. Em sua produção, ela escreve sobre o gênero literário apocalíptico em termos precisos quanto ao seu possível desenvolvimento na atualidade. Após resgatar a sua historicidade a partir do judaísmo tardio e do início da cristandade no primeiro e segundo séculos do cristianismo, a estudiosa lusitana esboça a atualização do gênero no possível hibridismo com os seus congêneres como a ficção científica, a utopia e a distopia, em manifestações artísticas intersemióticas presentes sobretudo na cultura pop.

Neste contexto, a cinematografia em geral se caracteriza como o espaço de maior exposição desse gênero literário ao transpor, via roteirização, obras da literatura ficcional para o cinema versando sobre as mais diversas condições sociais e científicas que conduzem as ações roteirizadas a cenários apocalípticos os mais diversificados. Os caminhos de diálogo entre o etos apocalíptico, que trata do momento final da consumação do destino existencial da humanidade sob a perspectiva cristã, e a realidade científica dos dias atuais, podem ser surpreendentes.

Importante pensador da patrística cristã, Orígenes acreditava que a vida se estendia a outros mundos, compostos de outras humanidades. Seu pensamento foi considerado herético no Concílio de Constantinopla, em 553 d.C.. Todavia, a ideia permaneceu e se espraiou por instâncias espirituais de cunho cabalístico e mesmo protestante. Já na modernidade, a religiosa adventista norte-americana, Ellen G. White, apresentou ideias como as de que todos os mundos seriam habitados, travando-se neles a mesma guerra espiritual que na Terra se desenrola entre Deus e Lúcifer, valendo o sacrifício de Jesus Cristo para esses outros planetas.
Assim, a correlação entre a perspectiva do Apocalipse e da ficcionalidade científica envolvendo a vida em outros mundos possui instigantes lastros culturais. Um sem número de produções em filmes e séries trabalham com o dialogismo apocalipse-ficção científica, instaurando o que poderia ser denominado de gênero neoapocalíptico, pois se no passado o contato com outros mundos era concebido apenas no imaginário artístico, na atualidade a ciência estabeleceu as bases para viagens espaciais a partir da chegada do ser humano à lua em 1969.

Atualmente, a humanidade cogita sobre a colonização de Marte, o planeta vizinho mais próximo. Na ficção, ela já ocorreu há muito e sua saga rendeu um expressivo número de roteiros que parece tender a multiplicar-se ao infinito. As narrativas que exploram o desconhecido fora da Terra podem surpreender também com a apresentação do desconhecido, para a maioria, da própria cultura terrestre, conforme pode ser apreciado em uma das séries disponíveis no serviço de streaming da Netflix em que o hibridismo entre o gênero apocalíptico e a ficção científica traz surpreendente nota referente ao folclore brasileiro.
 
Inteligência artificial e lenda indígena
Entre os diversos cenários que podem redundar na extinção da humanidade, um dos mais curiosos, sem dúvida, é o extermínio humano por meio de máquinas autoconscientes, através do que é conhecido como I.A., sigla para Inteligência Artificial. Dois filmes icônicos, referências nesta contextualização neoapocalíptica, são “O Exterminador do Futuro” e “Matrix”. Em ambos, o que restou da humanidade luta contra inteligências artificiais e seus artefatos robóticos para evitar a extinção definitiva da espécie humana.

Em diversos outros filmes e em um número mais amplo ainda de séries, as I.As. são entidades onipresentes nos roteiros de viagens espaciais. Faz todo sentido, afinal a distância e as variáveis envolvidas em um trajeto espacial apresentam dados que somente os computadores mais sofisticados poderiam processar com a rapidez necessária. O uso que os roteiristas fazem dessa premissa tecnológica é o mais amplo possível, não conhecendo limites imaginativos.

Na série “Outra Vida”, de 2019, que se encontra no catálogo da Netflix, todos os elementos de um gênero neoapocalíptico estão presentes. Criada por Aaron Martin, a série traz em seu roteiro a história exopoética de um estranho e gigantesco artefato alienígena que pousa na Terra, permanecendo inacessível a qualquer contato inteligente. Com o passar do tempo e a sofisticação tecnológica das I.As. terrestres, descobre-se a origem do artefato. Os humanos dão início a uma viagem interestelar para uma equipe ir até o planeta natal dos alienígenas com a finalidade de inteirar-se das intenções hostis ou pacíficas do aliens.

Toda a trama se passa em um futuro não muito distante, em que a humanidade já domina as longas viagens espaciais com o auxílio dos supercomputadores e processos criogênicos para a hibernação de tripulantes com a finalidade de que possam resistir às longas jornadas pelo cosmo. Em um encontro inesperado com uma nave da civilização invasora, a meio do caminho, a espaçonave terrestre mescla de forma acidental a sua I.A. com a sua congênere extraterrestre.

A Inteligência Artificial terrícola se apresenta aos tripulantes como um holograma que reproduz fielmente a condição e a aparência humanas, sendo capaz até mesmo de apaixonar-se pela oficial comandante. A nova I.A. alien, criada a partir da fusão com a sua correspondente terrestre, assume também uma forma humana, uma vez que simpatizara com a causa dos terráqueos, o que demonstra que a autodeterminação das Inteligências Artificiais é um dado cada vez mais explorado pela ficção.

Ao assumir a forma humana reproduzida em holografia, a tripulação sugere à I.A. híbrida que escolha um nome, que é um importante sinal de identidade na cultura terrestre. Em pesquisa célere sobre a história global da humanidade, a Inteligência Artificial adota o nome de Iara. Os tripulantes acham o nome muito bonito. Perguntam de onde ela o retirou. A resposta é surpreendente. Numa verbalização detalhada que trai sua condição computacional, a Inteligência Artificial resume: Iara é um nome retirado do folclore brasileiro. Cognominada Mãe D’Água, é uma sereia de água doce. Faltou a ela acrescentar que é uma versão indígena que Luiz da Câmara Cascudo, um dos maiores pesquisadores do folclore brasileiro, atribui à influência lusitana durante a colonização brasileira, conforme está registrado em sua obra “Geografia dos Mitos Brasileiros”.

À semelhança de suas lendárias irmãs marítimas que tentaram Ulisses na Odisseia, Iara possui belíssima voz, capaz também de encantar os homens com seu cântico, arrastando-os para o fundo do rio. Na série brasileira, que também está em exibição na Netflix, intitulada Cidade Invisível, o cineasta brasileiro Carlos Saldanha apresenta uma cena curiosa, que promove uma intersecção de ambas as versões. Como a série trata de uma adaptação de várias personagens do folclore brasileiro, talvez por uma questão de comodidade suas personificações lendárias se encontram próximas à faixa litorânea.
 
Em determinado nó da narrativa, a Iara de Saldanha se utiliza de seus dotes para tentar assassinar o protagonista, arrastando-o para o fundo do mar, mas desistindo quando percebe que ele tem fortes ligações com o seu mundo sobrenatural. Neste contexto neoapocalíptico, pois, não deixa de ser surpreendente a escolha onomástica alienígena em torno da lenda do folclore brasileiro. Surpreendente também, dependendo naturalmente do ponto de vista, é a ignorância dos tripulantes terrestres em torno do folclore brasileiro, sobre o qual não demonstram ter a mínima informação.
 
*Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; Doutor em Letras pela UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO
 
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por Gismair Martins Teixeira

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