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Literatura para desesperados

23.08.2012 - 10:24:46
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Quando viajo, tenho o hábito de comprar pelo menos um livro nas livrarias dos aeroportos, para levar durante o trajeto, e fazer companhia ao meu ser solitário e ao exemplar que já carrego comigo, aonde quer que eu vá, pois nunca sabemos da longa espera ou do caos aéreo que nos aguardam, a nós e à nossa ansiedade. Pois em minhas últimas viagens, fiquei decepcionada com o que encontrei à venda.
 
Há algum tempo ainda se podia localizar nas livrarias dos aeroportos livros interessantes, clássicos publicados por boas editoras. Podia-se acompanhar, passeando por suas estantes, os últimos lançamentos em ficção, ensaios e mesmo biografias, respaldados por críticos conceituados, e citados nos poucos suplementos culturais de jornais que ainda sobrevivem no País. 
 
Hoje, porém, as prateleiras estão repletas de best sellers, livros que inspiraram filmes ou filmes que viraram livros – publicados dentro da lógica “vendem mais porque estão na moda ou estão na moda porque vendem mais?” –,  centenas de volumes de auto-ajuda, entre os quais uma quantidade assombrosa de subliteratura para mulheres.  Títulos como “Mulheres boazinhas não enriquecem” ou “Por que os homens amam as mulheres poderosas?” ou ainda “Por que os homens nunca ouvem nada e as mulheres não sabem ler mapas de estradas?”.
 
Deus, por quê?! – pergunto, investigando o paradeiro dos clássicos ou outros livros que valem a pena e que estão ocultos em alguma obscura prateleira ou, no máximo, publicados sob a forma de pocket books, baratinhos pelo menos, à espera de seus cada vez mais raros leitores, estudantes talvez.
 
Em grandes e recheadas gôndolas, exibem-se livros que são, não livros na íntegra, mas algo mais falso do que aquelas capas ocas utilizadas pelos decoradores. São antologias de fragmentos, coletâneas de frases extraídas de autores famosos, sabe-se com que pinça e com que critério: “Oscar Wilde para inquietos”, “Nietzsche para estressados”, “Clarice Lispector para descasadas”. Este último título inventei por minha conta e risco, mas supondo que não tardará a estar no mercado.
 
Em uma dessas gôndolas, recheadas de publicações que prometem intimidade rápida com autores não facilmente digeríveis, encontramos um livro chamado “90 clássicos para apressadinhos”, que traz resumos em quadrinhos de umas tantas obras-primas da literatura universal e de outras tantas não tão primorosas assim.
 
Não pretendo aqui, porém, analisar as causas desse fenômeno, o porquê de o mercado editorial estar infestado desse tipo de literatura, de livros para quem não tem tempo de ler, de livros para os que não amam a leitura, mas que antes se comprazem com o circo armado em torno dela. Escrevo apenas para registrar minha estupefação e a perplexidade ainda maior ante outro quadro que me parece ainda mais aterrador nos aeroportos e em outras locais onde estamos condenados a esperar por horas: consultórios médicos, filas de bancos.
 
Embora as livrarias estejam abarrotadas de títulos supostamente atraentes, fáceis e sedutores, observo, nesses lugares, que poucas, pouquíssimas pessoas leem. A maioria encontra-se ali, afivelada às cadeiras, acorrentada aos relógios, o papo para o ar, contando carneirinhos de olhos abertos, ou então observando a tudo e todos com uma curiosidade mórbida e uma maledicência muda.
 
Julgo por mim e de dentro de minha miopia – é verdade, – eu que tenho uma natureza ansiosa, desesperada, que não suporto ficar nem uns poucos minutos à espera de algo, sem sacar um livro ou revista para me entreter, para deter, se não a marcha gosmenta das minhocas dos maus pensamentos, ao menos a ansiedade de ver o tempo precioso da vida se esvair. Não entendo como pode alguém suportar horas de espera sem ocupar sua mente com nada, sem a companhia de uma outra voz que lhes fale sobre outros seres, sobre outros mundos, reais ou inventados.
 
Não consigo compreender como as pessoas podem impingir-se essa solidão terrível na espera. Vejo, é claro, que algumas tentam contorná-la, valendo-se das novas tecnologias, acessando o celular, verificando vezes seguidas suas caixas de e-mail, atualizando compulsivamente o twitter ou o facebook à caça de algum novo post, mas vejo também que essa procura cansa e entendia.  Fico pensando, portanto, no que devem fazer essas pessoas nas tantas situações da vida em que somos condenados a esperar – e não falo aqui apenas dos aeroportos, mas da longa espera em que se constitui a própria vida humana, a espera na solidão, a espera na doença, a espera na velhice, a espera na antessala da morte.
 
Sim, tenho pena dos que não gostam, dos que não puderam ou não quiseram aprender a gostar de ler, porque a literatura é mesmo uma bela, se não a melhor, companhia para os desesperados. E no caso dos que ainda pretendem aprender a gostar – e creio que o hábito da leitura pode ser aprendido, como se aprende o gosto pela atividade física nas academias de ginástica – vale até mesmo recorrer à superficialidade da literatura de aeroporto, afinal, neste caso, como em outros, é muito mais triste esperar só do que mal acompanhado.
 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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