Logo

Bullying não tem como ‘deixar pra lá’

07.04.2022 - 07:35:00
WhatsAppFacebookLinkedInX
 
Criado no dia 7 de abril de 2016, o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola foi instituído como uma iniciativa para chamar a atenção para os problemas causados pelo bullying e estimular a reflexão sobre o tema. Sancionada no exato dia do massacre em Realengo, ocorrido cinco anos antes (2011), a Lei nº 13.277/2016 estabelece e reforça o apelo por mais empenho em medidas de conscientização e prevenção ao bullying. Segundo Paulo Freire, “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor", ou seja, quando não educamos para a liberdade, o sonho da vítima da violência é se tornar um agressor.
 
Os danos sociais e individuais são inúmeros por conta da violência escolar. As pessoas que a sofrem têm consequências ligadas, principalmente, ao sofrimento psíquico e, em casos extremos, ao suicídio. Segundo dados do Comitê Paulista pela Prevenção de Homicídios, em parceria com o Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em uma pesquisa de 2021, oito em cada dez jovens presenciam pelo menos uma situação de violência contra adolescentes nas escolas do Brasil.
 
Podemos destacar a reprodução das violências nos diversos ambientes sociais e, em situações graves, ataques armados a escolas e comunidades. A violência na escola pode ocorrer como indisciplina, delinquência, problemas na relação professor-aluno e aluno-aluno, entre outras. Há autores que classificam as formas de violência em conceitos, como, por exemplo, conduta antissocial, distúrbio de conduta e bullying. Ou seja, o bullying é uma das formas de violência no ambiente escolar, caracterizado como comportamentos agressivos, físicos ou psicológicos, que resultam em chutes, empurrões, colocar apelidos, discriminação e exclusão.
 
Estes comportamentos ocorrem, geralmente, contra grupos com características físicas, socioeconômicas, étnicas e sexuais, específicas. Estes grupos sofrem mais ataques do que aqueles considerados ‘padrões’ pela sociedade.  É importante abordar esse problema social para refletir sobre as suas causas, consequências e formas de combate. E mais do que ter um dia para tratar este assunto, é preciso discuti-lo cotidianamente. A discussão da violência e do bullying deve visar à conscientização da comunidade escolar e da população em geral, para a promoção de uma consciência social sobre este problema e se buscar, coletivamente, combater a violência.
 
O bullying se manifesta em duas formas: direta e indireta. A direta se expressa de duas maneiras, pela violência física, com agressões, extorsões, forçar comportamentos nos outros e ameaça e/ou pela violência verbal, com insultos e falas racista, machista, misógina, classista, lgbtfóbica e outras relacionadas à diversidade expressa no e pelo outro. A indireta ocorre pela exclusão, fofoca, boato, ameaça de exclusão, ou seja, comportamentos que objetivam manipular a vida social do outro. Atualmente cresce o chamado cyberbullying, que é a utilização das tecnologias para a prática de violência. As violências reproduzidas individualmente (direta ou indireta) são, geralmente, os preconceitos da nossa sociedade, como a discriminação contra negros e negras, indígenas, mulheres, população lgbtqia+, pobres, gordos e obesos, entre outros.
 
Uma das formas de combater a violência escolar está relacionada à compreensão e análise deste fenômeno. A causa da violência e do bullying envolve aspectos sociais e individuais: fatores econômicos, sociais e culturais e influência de familiares, colegas e comunidade; temperamento do indivíduo.  Por isto, o combate à violência escolar requer reflexão e ação junto ao indivíduo e à sociedade. Em geral, quando se aborda o bullying e outras violências há uma tendência de tratar apenas o indivíduo violento, ou seja, apenas o aspecto particular. Com isto, se individualiza e psicologiza a violência, de forma a esconder os processos sociais inerentes aos comportamentos violentos ou classificados como bullying.
 
As violências no ambiente escolar são uma expressão das violências da sociedade. A causa da violência não está no indivíduo, mas na sociedade que nos constitui seres humanos. Apenas em casos raros, resultado de algum transtorno psicológico grave, a causa da violência deve ser localizada somente no indivíduo. Assim, é importante educar os indivíduos para a solidariedade e para a construção de uma sociedade para a liberdade.
 
Pais e familiares podem ajudar no combate à violência por meio da educação humanizada das crianças e adolescentes fundamentada no respeito à diversidade, fomento de atitudes dialógicas e democráticas na resolução de problemas e conflitos, incentivo à solidariedade. Além disso, podem contribuir construindo um ambiente familiar acolhedor, onde as pessoas se sintam seguras para compartilhar suas experiências de vida sem se sentirem julgadas ou punidas.
 
Não se deve culpabilizar a vítima pela violência sofrida, pois isto resulta numa dupla agressão e intensificação do sofrimento psíquico. Ao tomar conhecimento de que seus filhos estão sendo vítimas de violência, pais e familiares devem acolher, procurar ajuda psicoterapêutica e comunicar à escola ou instituições cabíveis, o relato da violência para que estas tomem medidas para encerrar o ciclo da violência e proteger a vítima.
 
As agressões podem fazer a vítima se sentir excluída, discriminada ou revoltada, gerando intenso sofrimento psíquico. Para apontar algumas consequências específicas, a pessoa pode desenvolver transtornos de ansiedade e depressão e, em casos extremos, como pontuado anteriormente, levar ao suicídio. Também pode ocorrer da vítima reproduzir violência contra pessoas mais vulneráveis. Em outros casos, como já destacamos, essas vítimas, tomadas pelo ódio e vingança, acabam realizando ataques armados a escolas, shoppings, espaços de lazer ou que tenha aglomeração de pessoas.
 
Não existem respostas simples e fórmulas mágicas da paz para a resolução desta problemática. A violência e sua expressão na forma bullying é um problema complexo, que envolve aspectos individuais e sociais, políticos e econômicos. Algumas mediações são necessárias para adentrar o desafiador caminho de combate à violência. No aspecto individual, pode-se apontar o caminho educativo: ensinar as crianças e adolescentes o respeito à diversidade, o fortalecimento dos laços coletivos e solidários, a democratização das relações e a busca por autonomia e liberdade. No aspecto social, pode-se apontar a necessidade de rever e reconstruir os valores dominantes na sociedade, que fomenta e reproduz o individualismo, a competição e a meritocracia, criando a imagem do outro como um concorrente, um adversário a ser derrotado. Além disso, é fundamental a importância da educação no combate à violência, como apontou Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido e ser opressor”.
 
*Gervásio de Araújo é professor de psicologia da Estácio, mestre em psicologia social e doutorando em psicologia
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Gervásio De Araújo

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]