Goiânia – Tirei a noite de ontem para me esbaldar com o pior dos meus vícios: o futebol. Fui ao estádio ver o jogo do Goiás contra o Criciúma. Partida desenvolvendo bem para o time da casa, o goleiro dos caras pegando tudo quanto é bola e o Goiás exercendo um excelente controle, embora não conseguisse chegar ao segundo gol. Os três pontos estavam vindo para nossa conta contra um concorrente direto pelas quatro vagas na Série A do ano que vem. Tudo rolando nos conformes, sem tranquilidade excessiva mas também sem apuros. No meio do segundo tempo, uma parcela da torcida começa a vaiar o Felipe Amorim, o segundo atacante esmeraldino.
Conhece aquele velho ditado que diz que santo de casa não faz milagre? Pois é, esse é o problema do Felipe Amorim. Como é cria das categorias de base da Serrinha, sempre será mais cobrado que o restante dos jogadores. Terá que provar duas vezes, enquanto os demais gozam de um crédito extra na praça da confiabilidade. Por exemplo, se o Iarley faz uma partida medíocre e é substituído no Serra Dourada, invariavelmente é ovacionado. Caso o Felipe Amorim faça uma partida no mesmo nível, ouvirá uma vaia uníssona quando for sacado da equipe. Esse é o mundo cão.
Vaiar jogador do próprio time é a decisão mais burra que uma torcida pode adotar. Não ajuda em nada. É um tipo de cobrança equivocada e que normalmente não produz resultado algum. Na maioria das vezes, o jogador pressionado passa a errar mais. A insegurança bate pesado no cara. Se ele vai para um drible (e talvez o melhor fundamento de Felipe Amorim seja quando ele parte para cima do adversário em velocidade), sem a confiança necessária é bastante provável que perca a bola para o zagueiro. Novas vaias virão das arquibancadas. Mais abatido ficará o jogador na ânsia de acertar alguma jogada e acabar com seu martírio. É a espiral da derrocada sem fim.
A torcida do Goiás deveria aprender com a do Corinthians. Durante o jogo, só enaltecem e empurram o time. As cobranças individuais são feitas depois dos 90 minutos. Não é por menos que uma pesquisa recente mostrou que o “bando de loucos” paulistanos é a torcida mais temida pelos jogadores do Campeonato Brasileiro.
Felipe Amorim é um bom jogador que terá um futuro promissor se desenvolver melhor o fundamento da finalização. É seu calcanhar de Aquiles. Mesmo ainda insuficiente nesse quesito, ele pode ser decisivo como mostrou na partida contra o Atlético Mineiro na casa do adversário pela Copa do Brasil. Mas memória de torcedor de futebol é tão curta quanto o salário do trabalhador – não dura 30 dias. Se eu fosse o jogador, já teria chegado na diretoria e pedido para ser negociado após tanta cobrança desproporcional.
Enquanto a torcida esmeraldina não aprender a se comportar de forma inteligente na cobrança dos seus atletas, veremos nossas promessas deixando de usar a camisa verde por conta das vaias injustas.