Goiânia – Absolutamente dispensável. É o que penso das propagandas eleitorais gratuitas para vereadores. Por exemplo, em Goiânia, são 655 candidatos disputando o precioso tempo de uma propaganda em rádio e TV. É, literalmente, um se vira nos 30. São 30 segundos, garantidos pela justiça, no mínimo, para cada candidato. Os demais (parcos) segundos que podem ter os candidatos, depende da representatividade parlamentar de seu partido.
O que você pode fazer nesse tempo? Falar de suas propostas (se, de fato, você as tiver)? Escolher a melhor roupa, trabalhar o visual na televisão e tentar conquistar pela boa imagem? Mostrar como você é amado em seu bairro? Expor como ama os pobres e não tem nojo em beijá-los e abraçá-los? Ou então abusar da criatividade, não ter medo de ser ridículo e fazer com que, pelo menos, não se esqueçam de seu número?
Enfim, gostaria de conhecer uma pessoa (juro que fico satisfeita com uma) que tenha definido seu voto a vereador, convictamente e armada de argumentos, pela propaganda na TV ou rádio. Quando assisto a essas propagandas tenho os seguintes sentimentos.
1. Os candidatos que conheço e julgo como boas escolhas: não conseguiram transmitir quem de fato são e que podem ser bons parlamentares;
2. Os candidatos que conheço e sei que são uns calhordas: um bando de falsos! Abusando de recursos imagéticos e marqueteiros para forjar o trabalho sujo que fazem;
3. Os candidatos que não conheço: continuo sem te conhecer, meu caro.
Mas, enfim, triste é saber que a uma semana das eleições, os goianienses ainda não sabem em quem votar. E é agora que essas propagandas mostram todo seu poder. Se, dessa forma, superficialmente e toscamente são elas os meios de se conseguir votos, eu vou dar algumas dicas para você que quer se eleger a qualquer custo. Não sabe bem o que vai fazer. Mas nos conta depois que estiver eleito.
1. Não seja solteiro. Divorciado, nem pensar. Ou se for, não mostre ser. Não pega bem, a família brasileira gosta de quem é casado. Sabe como é, se não é casado, é porque tem algum problema emocional ou social, vai saber! Se não sabe conviver nem com uma esposa/marido, como conviver com o povo? Agora, se for casado, lustre bem a aliança. De preferência, leve seu parceiro para o programa. Não importa se seu casamento vai mal. Aliás, nem importa se o casamento já tiver acabado há anos. Assinar o divórcio e tirar a aliança do dedo é decretar descrédito frente à população.
2. Se for homem, faça a barba. Pode passar a impressão de sujo, de homem preguiçoso, que não gosta de trabalhar. Ou, em outra hipótese, vai parecer um comunista da década de 1970. E sabe como é, as pessoas até hoje temem esse tipo de gente que quer mudar as coisas. Tudo vai bem, graças a Deus. Bigode também não pega bem, lembra bicheiro, sei lá. Garanta seus votos, faça a barba e transmita credibilidade, vai dar tudo certo.
3. Seja cristão! Não tem como confiar em quem não crê ou não teme a Deus. Não só seja cristão, mas deixe bem explícito que é. No discurso, no material, em algum objeto que agregue valor. Hitler dizia ser cristão, Chaplin era ateu. Mas ainda é um discurso que convence, vai por mim.
4. Leve seus filhos para gravar o programa. Não importa a última vez que você esteve na escola dele, se conhece seus amiguinhos, se já conversou com ele sobre seus problemas. Leve-o ao programa e se mostre amoroso. Mostre que tratará os cidadãos como a seus filhos: com muito amor. Afinal, tudo de que um cidadão mais precisa é de amor.
5. Seja filho de alguém. A máxima “filho de peixe, peixinho é” nunca falha. Mostre que você e seu pai (seu avô, seu tio ou sei lá quem) são praticamente a mesma coisa! Que você vai continuar fazendo exatamente o que ele fez. Se não for filho, deve ser sobrinho, primo, sobrinho-neto, enfim! É bom mostrar que você é de boa procedência, não dá para criar uma confiança em alguém que a gente não sabe de onde vem.
6. O tempo é curto, eu sei, mas não deixe de incluir duas palavras mágicas em seu discurso: honesto e trabalhador. Você não tem que provar isso durante o programa. E, é provável, que nem terá que provar isso quando for eleito e trabalhar. É bem improvável que quem te elegerá acompanhará seu trabalho para saber se está sendo honesto e trabalhador. Mas se há características que o brasileiro acha que está faltando em parlamentar são honestidade e vontade de trabalhar. Então, não se esqueça dessas palavras!
Quando observo esses valores cristalizados e sublimados que perpassam as propagandas, eu penso nos políticos cujas cabeças já rolaram: trabalhadores, casados, cristãos, nunca de barba. Aqueles que sempre estavam em casa almoçando com a família, não iam com álcool, não frequentavam bares. O que acontece, caro (e)leitor, é que, queira você ou não, nenhum desses itens fará de seu candidato um bom parlamentar. E que se aprenda com os erros acima.
Mas se você, candidato, tiver excelentes propostas, pensadas coletivamente e coerentes com a realidade de Goiânia. Se souber todos os trâmites de um trabalho enquanto vereador e exatamente o que fazer para exercer um bom mandato. Se tiver um passado de compromisso público com a sociedade. Se tiver uma longa história de militância. Se você for tudo isso, mas não seguir minhas dicas, devo lamentar. Pelo programa na televisão, você não convenceu.