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O escafandro e a borboleta

15.10.2012 - 12:08:24
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Goiânia – Quinta-feira, 11 de outubro. Uma ligação recebida no meio da noite revela uma triste notícia: uma prima muito querida havia sucumbido a um câncer fulminante. Há três semanas, minha mãe falava com ela ao telefone e se tranquilizava com seu otimismo em relação à cura da doença. Depois, um susto, um nó na garganta. 
 
O mundo ficou mais triste sem aquela risada aberta e sem censura, marca registrada de uma pessoa que tinha vocação para ser feliz. Também ficou mais mesquinho, sem alguém que não tinha essas bobagens de só ligar para quem ligava para ela, de só visitar quem a visitava. De só retribuir o que recebia.
 
Minha prima estava além das picuinhas que nos impedem de amar irrestritamente. Ela gostava, ela sentia falta e isso era suficiente para que procurasse por aqueles por quem tinha afeto. Sempre com um mimo, na maioria das vezes feito por ela mesma, e com um interesse genuíno pela nossa vida, pelos nossos problemas.
 
Sim, eu deveria ter telefonado. Ao saber da doença dela, deveria ter ligado imediatamente e manifestado minha solidariedade, meu carinho. Mas como encarar a possibilidade de perder alguém que se ama? Com enfrentar sem covardia a certeza de que o tempo é inexorável e de que tudo pode mudar em um segundo?
 
Fiquei paralisada e usei minha mãe como escudo para o meu medo. Ela fez o que eu deveria ter feito. “Daqui a algumas semanas ela estará melhor, mais fortalecida, e eu poderei ligar menos constrangida”, pensava. “Amanhã essa ligação será mais fácil”, acreditava. Mas o amanhã não existe, ele é uma ilusão.
 
Lembrei-me, então, de quando li pela primeira vez o livro “O escafandro e a borboleta”, do jornalista francês Jean Dominique-Bauby, que mais tarde deu origem ao filme, lançado em 2008. Editor-chefe da revista Elle, em Paris, Jean-Do, como era chamado, viu sua vida mudar por completo no dia 8 de dezembro de 1995.
 
Depois de sofrer um derrame e passar alguns dias em coma, ele se descobriu imobilizado na cama. Vítima de uma doença chamada Syndrome de Locked-In, Jean-Do se viu literalmente trancado em si mesmo. Apesar de estar plenamente consciente, não conseguia mover nenhum músculo, exceto a pálpebra do olho esquerdo. 
 
Foi justamente a partir desse pequeno fragmento de seu corpo que Jean-Do se comunicava com o mundo e conseguiu escrever o livro. Sua assistente soletrava todo o alfabeto até que ele piscasse numa letra. Dessa forma, letra a letra, o jornalista foi contando sua história.
 
Antes do acidente, Jean-Do era um homem bem-sucedido em todos os aspectos. Reconhecido profissionalmente, foi casado por dez anos, teve dois filhos, divorciou-se e foi viver com sua nova paixão. Era convidado para as festas mais badaladas do planeta, cortejado por modelos, empresários, envolto numa aura de desejo e poder.
 
Uma rotina alucinante, que várias vezes o impediu de refletir melhor sobre seus atos, sobre sua forma de lidar com os sentimentos alheios e as escolhas feitas com base apenas no prazer de momentâneo. Sobre a tendência de ignorar o que nos incomoda e protelar o que sabemos importante, mas não queremos encarar. 
 
“(…) As mulheres que não soubemos amar, as chances que não quisemos aproveitar, os instantes de felicidade que deixamos escapar. Hoje me parece que toda a minha existência não terá sido senão um encadeamento desses pequenos fiascos”, conta o autor no livro. Ele morreu dez dias após a publicação da obra.  
 
Preso aos vários aparelhos que o mantinham respirando, Jean-Do sentia-se como se estivesse dentro de um escafandro (armadura de borracha e latão utilizada por mergulhadores para trabalhos no fundo do mar e que comunica-se com a superfície por meio de um duto, que assegura a livre respiração e resiste à pressão da água).
 
Ainda que estejamos sãos, muitas vezes nos aprisionamos em nossos escafandros. Vestimos uma armadura que nos isola do mundo e reduz nosso contato com o que existe de mais sensível e denso. Não conseguimos ouvir o bater de asas das borboletas do afeto, da delicadeza, da efemeridade da existência.
 
Vamos adiando nossas manifestações de carinho, nossos pedidos de perdão, os abraços que deveríamos dar. Com o peso do escafandro, caminhamos cambaleantes rumo a um amanhã que insistimos em não encarar como incerto, acreditando que, assim, estaremos protegidos das dores, dos sustos, dos medos.
 
Mas o escafandro não nos protege da vida. Ela acontece à revelia do que planejamos, das nossas vontades. E o que não fizemos, não dissemos, não sentimos, não pode mais ser resgatado. Fica perdido para sempre no fundo do mar. Há que se rasgar a armadura e respirar sem dutos, livremente, enquanto é tempo. 
 
Eric-Emmanuel Schmitt dizia que a única coisa que a morte nos ensina é a urgência de amar. Aprender a não postergar, a não se acovardar, a dizer com todas as letras, a abraçar com todo calor, a reter o que de fato importa e a liberar o que pesa desnecessariamente. Eis os desafios para se ouvir as asas da borboleta.
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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