Logo

Ao mestre, sem carinho

22.10.2012 - 13:24:45
WhatsAppFacebookLinkedInX

Goiânia – Neste mês se comemorou o Dia do Professor. Homenagens pipocaram nas redes sociais, escolas, entidades, órgãos públicos. Todas muito calorosas, ressaltando a importância da categoria para o desenvolvimento do nosso País. Meras palavras, bem distantes da realidade vivida por esses profissionais nas salas de aula.

Já conhecemos bem as agruras enfrentadas por quem leciona na rede pública, seja no Ensino Fundamental ou no Ensino Médio. Mas os professores universitários também não escapam dos problemas, principalmente aqueles que atuam em instituições de ensino superior privadas.

Um exemplo disso foi um episódio do qual tomei conhecimento, ocorrido em uma faculdade particular de Direito de Goiânia. Disposto a preparar os alunos para a realidade que encontrariam no dia do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, o professor pediu que fizessem peças prático-profissionais à mão.

Durante a produção das peças processuais, o acesso ao Google foi proibido, tendo os alunos apenas a legislação como fonte de consulta. Exatamente o mesmo cenário ao qual são submetidos na segunda fase do Exame OAB. Parece lógico e louvável preparar os estudantes para a realidade, mas não foi o que eles acharam.

Revoltados com o método do professor, qualificado como “tortura” e “terrorismo”, os alunos fizeram um abaixo-assinado, foram até a coordenação do curso e exigiram que a atividade fosse abolida. Usaram o argumento de que não podiam ficar insatisfeitos porque estavam “pagando muito caro por aquilo ali”. E conseguiram.

Durante meu período de docência também passei por situações parecidas. Em minhas tentativas de simular o quadro que os estudantes encontrariam fora da academia, muitas vezes fui taxa de “terrorista”. A diferença é que tive a sorte de contar com o suporte das coordenações de curso, que me apoiaram por perceber que as atividades estavam em consonância com a proposta pedagógica das instituições, e de vários alunos, que compreenderam que o método de ensino era válido e o abraçaram.

É triste perceber que em vez de ser concebida como um processo de caráter transformador, a educação é considerada em diversas instituições de ensino como mercadoria. O estudante “compra” o serviço e escolhe como e quando deve ser prestado. Ele é um “cliente”. E como o cliente sempre tem razão, ele manda.

É evidente que não se pode negar a importância das mídias digitais como ferramentas de aprendizagem. Entretanto, vejo que muitos alunos tornam-se dependentes do Google e das análises mastigadas que nele encontram. Não conseguem desenvolver um raciocínio sem esse sistema de busca, ficam completamente perdidos.

A questão é que nos momentos mais cruciais da carreira de um profissional dificilmente ele poderá dispor do Google. Seja num exame de seleção, numa sustentação oral em audiência, na hora de ministrar uma palestra, conduzir uma reunião ou procurar a solução para uma situação nunca antes vivenciada, é consigo apenas que ele contará.

Aqueles que massacram os professores exigentes, que fogem do óbvio em sala de aula e impõem desafios aos educandos, provavelmente não percebem que a missão de uma instituição de ensino superior não é a mera reprodução das práticas existentes – e que pode ser aprendida em cursos profissionalizantes –, mas a reflexão, a produção de novos conhecimentos e a construção de novos caminhos.

O aluno não é um simples receptor de ideias. A educação é um processo de mão de dupla, por meio do qual o educando aprende com o educador e vice-versa. Porém, atualmente temos uma via de mão única: o estudante é quem dá as cartas, relegando o professor à função de promotor das atividades que ele deseja realizar.

O educando-cidadão quer e valoriza o educador comprometido com seu crescimento, com o desenvolvimento pleno de suas potencialidades. Já o educando-cliente busca um serviço rápido e padronizado, de preferência prestado por alguém que não atrapalhe seus afazeres fora da escola.

Tristemente, vemos a propagação dos educandos-clientes e das escolas-empresas, estas últimas interessadas apenas em vender suas “mercadorias” para o maior público-alvo possível. Alunos desconectados saem das salas de aula como se tivessem saído de um barzinho. Vão para o mercado de trabalho como quem vai a uma festa.

Paulo Freire dizia que “a educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa”. Sim, hoje vivemos uma farsa. Obedecendo à lei do mercado, o educador finge que ensina, enquanto educando finge que aprende.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]