Logo

A quem serve o horário de verão?

29.10.2012 - 11:23:17
WhatsAppFacebookLinkedInX

Goiânia – A última semana foi sofrida, como em todos os anos. Um baque no organismo dos brasileiros das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste que acordam cedo, ainda no escuro. Aquela hora adiantada nos relógios, mas que seu corpo custa muitas semanas a entender. Mas triste mesmo foi saber, ao conversar com um professor de Engenharia Elétrica da PUC-Goiás, que é muito provável que esse horário de verão sempre permaneça mais por questões econômicas do que por questões de energia, de fato. 

A começar, quem acha que o horário de verão serve para economizar energia, está enganado. A economia é mínima, como explica Luis Fernando Pagotti, de 0,2%. Ele vem mesmo para evitar que indústria, comércio, casas e iluminação pública funcionem todos ao mesmo tempo. Com essa horinha adiantada, há um “revezamento”, evitando, por exemplo, que as luzes domésticas e a iluminação pública sejam ligadas antes das 19 horas. 

Quando há essa sobrecarga, geralmente as usinas térmicas são acionadas. Na conta de luz há um itenzinho que se refere à energia de segurança. Quando utilizamos essas usinas, vem um valor acrescido nesse item. A ideia, portanto, é não acionar essas usinas. De fato, penso que deve fazer bem ao meio ambiente. Economicamente falando, isso significa R$280 milhões a menos. Uma média de quase R$2 por todo o horário de verão por brasileiro. Penso que há muita gente que topasse pagar por isso.

O professor conta que, no Brasil, a geração de energia vai muito bem; é abundante. O problema reside, antes, na distribuição de energia. Nos últimos anos investiu-se em geração de energia, mas não investiu-se em distribuição. O que, no fim das contas, dá quase na mesma coisa. Temos energia, mas não temos como ter acesso a ela. Portanto, para Luis Fernando, seria absolutamente possível extinguir o horário de verão. Ou poderíamos usar as benditas usinas térmicas e pagar por isso. Ou, simplesmente, investir de vez em distribuição de energia. E por que então essa hipótese não é cogitada?

Pois bem, o professor deu a dica dele e em seguida eu e o cinegrafista da TV onde trabalho fomos ao centro de Goiânia confirmar. Em todas as lojas que entramos, os comerciantes confirmaram. “Vendo muito mais no horário de verão, com certeza”. “O movimento aumenta muito mais, até estruturo a equipe para ficar até mais tarde”. Essa hora a mais faz muito bem ao consumo. Penso que, unido ao fim de ano, quando as pessoas estão dispostas a gastar mais, a coisa casa melhor ainda. Aquele solzinho ainda no céu assim que você sai do trabalho te motiva a ir para as ruas fazer o quê? Consumir! 

Muito bem, a outra má notícia que tenho é que não é somente das 17 às 22 horas que temos um pico no consumo de energia. Nos últimos 12 anos há um pico que se iguala a esse no meio da tarde. Sabe aqueles apagões repentinos na tarde? Pois então. Todos os aparelhos ar-condicionado ligados nesse momento de muito calor. A energia não tem como chegar para todo mundo; então ela é desligada numa região aqui, outra ali. E esses apagões o horário de verão não resolve. As usinas têm que ser ligadas, de todo jeito.

Mas por que há 12 anos esse novo pico? Coincide, exatamente, com o período que a população brasileira melhorou seu poder aquisitivo. Ar-condicionado deixou de ser artigo de luxo. Nos barracos nos morros do Rio não faltam TV de plasma e o quê mais? Ar condicionado! Então o governo acaba dando condições à população de comprar artigos como esse, mas depois não garante a distribuição de energia e, portanto, o seu livre uso.

Parece que a gente já ouviu essa história antes. Reduz-se o IPI, todos compram carros. Depois a gente vê o que fazer com esse amontoado de veículos disputando espaço nas ruas. Depois pensamos o que fazer com o impacto ambiental gerado por um número absurdo de carros. A falta de planejamento que acompanha o crescimento econômico pode colocar tudo a perder. 

O incentivo ao consumo e a possibilidade do aumento do poder aquisitivo caminham sem nenhuma harmonia com um planejamento da vida que queremos. Não há consonância com o desenvolvimento estrutural que deve haver nas cidades. Todo esse crescimento econômico pode se tornar uma explosão de problemas sócio-ambientais sem tamanho; como assistimos agora com os apagões das tardes e com o grave problema de mobilidade nas grandes cidades.

No fim das contas, parece vivermos sempre uma ilusão. Os interesses em vista giram, antes, em torno de uma economia do que do bem estar da população. Sacrifica-se o organismo em nome do maior consumo. Ilude-se dando a possibilidade de compra de um ar-condicionado, em troca de quedas de energia corriqueiras. Oferece-se uma alegria efêmera de compra de carro como solução para os problemas de transporte, sem que a cidade dê conta desse volume de automóveis. 

O desenvolvimento só será pleno e o crescimento econômico só fara sentido quando houver planejamento e quando houver governo que peite os grandes banqueiros e empresários que ganham a custas dessa ilusão.  
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

Mais Lidas
Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]