Antes de qualquer linha, quero deixar claro que gosto de crianças. Algumas, morro de paixão (um beijo para Ágatha!) e quero ter filhos! Mas aquela história que mãe vive dizendo que tudo tem sua hora é bem verdade. E não estou querendo ser moralista me referindo a gravidez precoce não. Eu, aos 22, tenho certeza de que não chegou minha hora. Entre alguns motivos pontuais (como quem seria o pai), um deles é que não estou pronta para entrar na onda de uma criança por 24 horas. Elas têm uma dinâmica própria. E se você não entende, diria o poeta, melhor não tê-los. Vai acabar dando razão para Herodes (o tal que no tempo de Jesus mandou matar as criancinhas).
Eu tive o privilégio de ter uma mãe que trabalhou só um período do seu dia até meus 11 anos. Fico pensando se vou conseguir fazer o mesmo pelos meus filhos. Eu juro que entendo todas as birras, choros e manhas dos pequenos quando a mãe, finalmente, chega em casa ao fim do dia. Mas essa semana, eu saí do sério. Tentei em um dia: trabalhar 10 horas, fazer as unhas e chegar às 20h na colação de grau da minha turma de Jornalismo. Eu queria mais que tudo assistir a todos os discursos como se fosse para mim (por razões do destino, me formei antes da hora e não pude colar grau com eles). Dei uma de super-herói, abri mão de almoçar em casa, acelerei meu serviço para tudo dar certo.
Eu estava muito feliz de estar, pontualmente, às 19h na porta da casa da manicure, que só chegou dezoito minutos depois, porque tinha ido buscar a filha Sofia, de dois anos, na casa da babá. Sofia estava o dia inteiro longe da mãe. Lógico, ela queria colo, brincar, atenção e tudo mais. Normalmente, Sofia é educadinha e fácil de lidar. Mas esse dia, ela estava com a pá virada. Começou por fazer a mãe parar de fazer minha unha para buscar um carrinho para fotografá-la com meu celular.
Depois deixou o aparelho cair umas oito vezes, mordeu, babou e tudo mais. Eu juro, eu estava na onda e ignorando que cada pausa era um discurso a menos que eu perdia. Aí veio a acetona. Pegou o vidrinho da bendita, única que a manicure tinha, e tchá: jogou tudo no chão e na roupa. Pausa para trocar a blusa dela (lá se vão outros minutinhos).
Depois veio o iogurte que ela queria, a balinha, o nariz sujo que tinha que ser limpado, o remédio que ela tomou sem poder. Todas ações exigiam atitude da mãe, e os canudos sendo entregues. Eu fui ficando um pouco nervosa. Ela também. “Sofia, vai lá dentro buscar sua Hello-Kitty. Sofia, vai pegar sua boneca grandona. Cadê seu ursinho?” Todas as táticas foram usadas para afastar a menina do colo da mãe. E ela sacou, né? Eu tinha muita dó. E muita raiva: era a formatura que eu estava perdendo. Mas ok. Engoli seco a raiva. Sofia não tinha culpa, afinal.
Mas ela fechou com chave de ouro: pegou com tudo no meu dedão com a tintura bem molhada ainda. Quem é mulher sabe que é um saco trocar o esmalte quando estraga. Mas o problema não era esse. Lembra da acetona? Só tinha suficiente para limpar os cantinhos. “Nádia, vou ali no supermercado rapidinho”. 10 x 0 para Sofia. Acabei saindo de lá às 20h40 (e não às 20h, como cronometrei) com a Sofia empurrando o portão para eu não ir embora. Bem, não preciso dizer que cheguei para o abraço nos colegas, somente. Mas descobri que não estou pronta para ter filhos. Não agora.
Nádia Junqueira é jornalista.