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Uma palavra só para o mundo e a vida

15.08.2023 - 07:57:03
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Há uma palavra que não costuma ser lembrada entre as mais belas da língua portuguesa, mas que tem uma força expressiva única. “Gerais”, que antigamente se grafava de maneira ainda mais bonita, como “geraes”, é um termo capaz de invocar ao mesmo tempo imagens poderosas e sentimentos, paisagens concretas e todo um mundo simbólico que fala muito sobre o Brasil, sua natureza única e sua história. 
 
Há poucas semanas, fazendo uma caminhada pela Chapada Diamantina, cruzei, por exemplo, os Gerais do Vieira, lugar bonito que só. Nas nossas chapadas, os gerais são amplos campos de altitude, de vegetação rasteira, que permitem ao olhar alcançar toda a vastidão da paisagem, sempre emoldurada por paredões e abismos, e cortada por rios de águas cristalinas ou ferruginosas.
 
Os gerais, de forma mais concreta, são isso: descampados e campos de altitude no Planalto Central brasileiro, suco da beleza do Cerrado.
 
Mas eles são também sobretudo a expressão de um simbolismo que fala muito de nossa identidade e das culturas que ocuparam o interior brasileiro ao longo de nosso duro processo de colonização.
 
No Grande Sertão: Veredas, a palavra aparece logo no primeiro parágrafo, quase como um sinônimo de “sertão”:
 
“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte.”
 
Importante observar aqui o emprego do artigo definido: Riobaldo fala primeiro do gerais, no singular, e só depois usa o pronome demonstrativo “esses”, no plural. Parece que, para ele, portanto, “gerais” é, antes de tudo, um lugar específico, ainda que sem endereço, e não a designação de uma determinada geografia que se repete em pontos diferentes do território.
 
Gerais é sinônimo de vastidão vazia e sobretudo expressão da solidão do caipira que habita ele ou suas adjacências. Enquanto “sertão” parece incorporar a aridez física dos interiores do Planalto Central, o gerais é principalmente representação de um estado de alma, que fala do diminuto tamanho do ser humano nas terras de um Brasil ainda em violenta construção, do confronto com o desconhecido e com uma natureza e um outro tomados como selvagens e ameaçadores.
 
Gerais fala de um mundo sem fim conhecido, de lugares onde os mapas não chegam, do homem à mercê dos elementos.
 
“Sempre, nos gerais, é a pobreza, à tristeza. Uma tristeza que até alegra…”, diz Riobaldo.
 
Gerais soa bonito porque é um adjetivo tornado substantivo, criando um nome que já expressa sua qualidade essencial, que é, na verdade, traço essencial da vida: a vastidão. 
 
Gerais é a gente solto no mundo.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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