Acredite você ou não: eu já fui alguém pontual. Na adolescência, me orgulhava dessa característica britânica. Chegava com antecedência a todos os compromissos e pagava sapo aos atrasados. Me encarava como a própria encarnação tupiniquim do Big Ben. E me sentia superior por conta dessa virtude. Ah, a ingenuidade e o idealismo juvenil… Coisas que ainda corriam por essas veias hoje decrépitas e descrentes.
Mas o tempo passou e fui tomando um monte de porrada da vida. Chegava em todos compromissos no horário e ficava esperando, esperando, esperando… Enquanto isso, pensava no tanto de coisas que eu poderia estar fazendo naquele precioso tempo perdido. Aquilo doía profundamente – a sensação de tempo perdido. E não sou nenhum Proust para partir em busca do mesmo… Aprendi a sempre carregar algo para ler em toda e qualquer ocasião, hábito que ainda preservo. Sempre tem um livro no meu carro, a chamada leitura de espera. Li calhamaços esperando pessoas. Mas os tempos passaram, os compromissos aumentaram de maneira significativa, fui cansando de tanto esperar e introjetei o mau hábito brasileiro do atraso em minha vida.
Agora, até quando quero ser pontual tenho sérias dificuldades. Parece que sempre vivo no limite do horário. Por exemplo, vamos supor que eu esteja em casa e tenho um encontro para, digamos, 20h. Vou pensar o tempo de trânsito, o tempo para me arrumar, comer algo e tudo mais. Mas sem um minuto de gordura. Tudo feito na correria para cumprir a demanda. Só que os imprevistos estão aí justamente para derrubar os não precavidos. Então, uma ligação já quebra meu planejamento. Ou uma canseira para estacionar no local, coisa tão comum hoje em dia, faz com que eu chegue pedindo desculpas pelos minutos que fiz o interlocutor aguardar.
Mas aprendi uma nova tática ao combinar horários: pergunto ao cara se ele é pontual. Se ele disser que sim, me esforçarei mais para chegar na hora combinada. Às vezes consigo, outras não. Mas não julgue alguém na reabilitação que isso é coisa feia. A recuperação de um vício sempre é tarefa árdua. Por outro lado, se o cara tergiversar, vou de boa e tranquilo. Sem me estressar com o trânsito ou problemas para estacionar. Afinal, fogo trocado não machuca em nenhum dos lados, não é mesmo? Se bem que pode também matar os dois… Mas aí vão os dois abraçados e sem lamúrias, o que sempre é bem mais divertido!